O ballet da nudez para não dançar feio na política


No último domingo (14), encerrou-se o Festival de Dança de Londrina no teatro Ouro Verde. Apesar de ter começado na antevéspera do primeiro turno das eleições, foi só no dia 8 deste mês que a mostra oficial abriu as cortinas. A 16ª edição, como todas as anteriores, trouxe para o palco mais uma questão da atualidade: o cenário da disputa política, particularmente sobre as informações manobradas nos espaços virtuais. A escolha do tema é das mais acertadas. Embora isso,não deveríamos isolar o problema ao virtual, porque é apenas mais um dos terrenos em que se propagam falsas ideias e notícias. É verdade que as redes sociais e os aplicativos de mensagens deram alguma amplitude e velocidade a mais ao que é enganoso, talvez seja essa a razão do espanto.Imagino, entretanto, que os tensos encontros familiares às vésperas do segundo turno devam reproduzir, influenciar ou serem alterados pelos Trending Topics que estão inundados por aquilo que a organização do festival nomeou como “manipulação informativa”. Diante do uso de inverdades, candidatos têm igualmente respondido em suas aparições televisivas e reagido na justiça, logo fora do ambiente de navegação, mas por conta dele.

Esse isolamento das conexões sociais via internet também aparenta atingir alguns eleitores que preferem discutir corrupção, outro tema muito contemporâneo dos brasileiros, sem refletir sobre como suas participações na circulação de fake news correlaciona-se às demais posturas antiéticas. Ou seja, há vezes que maneiras indecentes de combater os considerados corruptos passam legitimamente sem a indagação sobre os parâmetros a partir dos quais o jogo democrático deve ser feito. Se o Festival de Dança isola o problema da “manipulação informativa no contexto virtual”, outros eleitores reservam a crítica da ética na política à prática do enriquecimento ilícito e pouco se perguntam sobre os caminhos adotados na disputa eleitoral. O compartilhamento de mensagens está livre de um crivo ético? E quanto a pergunta também se refere à ampla comunicação via internet e ao diálogo face a face? Trata-se de alargar, no primeiro caso, a compreensão sobre os espaços das relações políticas e sobre as responsabilidades que lhes estão associadas e, no segundo caso, o entendimento sobre o que é justo, moral, ético. Enfim,o correto diz respeito apenas às gestões públicas e não aos atos políticos na sociedade democrática?

Minha posição, portanto, é desestabilizar posturas críticas observadas no evento artístico e na política para ampliar os limites da noção de participação respeitosa e cidadã. Desestabilizo a fim de tentar aprofundar a possibilidade de crítica, exigindo muitas vezes a revisão de atitudes e convicções. As motivações para isso advêm da prática da dúvida que sustenta as possibilidades de refletir sobre as práticas sociais e da provocação que nos faz a Cia Alias, da Suíça, por meio de seu espetáculo “Antes” no mesmo festival.

A obra é parte da trilogia “Distância”, que aborda a natureza humana e sua história.A coreografia de Guilherme Botelho, apresentada como encerramento da mostra e como abertura da turnê da companhia no Brasil, é altamente instigante. Não porque a nudez dos intérpretes atinge-nos moralmente como sugeriram partidários do movimento que se inflaram recentemente contra artistas que tinham o corpo humano como meio e objeto de seu fazer. A propósito, tal pauta moral de extrema-direita continua tentando se eleger contrariamente à diversidade de corpos e pensamento e à liberdade artística. “Antes” é instigante por revolver sentimentos e certezas sobre a potencialidade criadora e comunicativa da expressão corporal. A nudez cênica não provoca ataque aos “bons costumes” – o que quer que possa significar. O nu coreografado movimenta admiração estética pela anatomia que nos constitui e, no meu caso, imobilidade durante a apreciação da obra em razão de colocar todo o gestual no centro de meu pensamento reflexivo e não em qualquer outra parte de minha pessoa. Estando o pensar ocupado por todos aqueles músculos – que abriam estruturas ósseas com a respiração, faziam pulsar como coração membros inferiores e superiores, emitir som por dorsos e não por gargantas –, não sobrava espaço para minha própria movimentação na cadeira. Não poderei esquecer como as costelas que se arreganhavam para inflar abdomens com ar…Esses e outros movimentos sugeriam suas existências anteriores à pessoa que o conduzia. Isso porque atividades musculares da face, às quais atribuímos maior capacidade de subjetivação de um corpo (sua individuação),aparecem mais tardiamente na coreografia e em grande parte eram nulas. No entanto, antropólogos sabem que esse recuo à anterioridade natural do corpo humano, à qual parece se dedicar a peça, é apenas lógica e não historicamente possível. Não há um movimento essencialmente natural, porque não há uma natureza anterior à humanidade. Somos nósque criamos uma ideia de onde termina e começa o natural. A despeito da diferença entre o discurso daquela coreografia e de minhas influências antropológicas, a dança exibida era eficaz na produção de um estranhamento sobre o que poderia ser familiar num corpo, e, nesse instante, voltava-se a aproximar da prática antropológica que recusa a considerar que há existências completamente conhecidas.

Por essa última razão não me restava outra atividade a não ser a de pensar e a de desestabilizar certezas. Partes de nosso corpo que servem para andar, respirar, pulsar, mastigar, sonorizar agora trocavam suas potencialidades entre si para fruir reflexões e contemplação estética. Já não me sentia seguro para dizer o que era um corpo e seus componentes. Nem mesmo era possível separar o palco dos que dançavam, porque juntos sustentavam o meu espetáculo interno: um retorno a mim, aos meus pensamentos com o intuito de perguntar-me sobre o que entendia naquele instante e reciprocamente sobre o que era encenado. O cenário de minha própria efervescência era na verdade o ballet do nu. As expressões artísticas, sempre um preparo para as seguintes e ao mesmo tempo únicas em si mesmo, obrigavam-me a indagar sobre as escolhas coreográficas e de seu diálogo com questões da contemporaneidade. A dança revertia-se em cenário e espetáculo para os meus atos cênicos interiores.

Uma experiência de instabilidade de significação e de separação entre plateia e artistas. Quando achava ter encontrado um solo firme para poder dar conta dos sentidos que se produziam enquanto me relacionava com a obra, descobria que outras perguntas eram possíveis de serem observadas por mim. Talvez duas dessas mereçam ser explicitadas.

Uma delas refere-se à relação entre o individual e o coletivo. Conforme desenvolvia-se a coreografia criava-se, supomos, mais espaço para que certos corpos ganhassem alguma autonomia em relação ao conjunto. Se no princípio da dança os corpos tendiam a reproduzir igualmente movimentos em curto intervalo de tempo, no decorrer do espetáculo um ou outro podia expressar-se sozinho mais longamente. E, em muitos momentos, assumiam a coordenação do coletivo, quando a batida dos seus pés produzia ação corporal simultânea dos demais, além de sonorizar em harmonia com a tensão que a música emitia.

A última instabilidade produzida coreograficamente circunda a (in)certeza mais geral sobre o que é um corpo, as partes que o compõe ou que ele pode constituir. Talvez corpos que instalam um de seus pés firmemente no chão, recolham o outro próximo de seu abdômen e curvam o tórax em direção ao solo deixem de ser humanos para assumirem formas arbóreas. A contemplação demorada dos artistas nessa posição fazia sobressair uma fauna variada feita por gente. “É forma humana ou vegetal?”, perguntava-me porque um diálogo entre existências era possível através da poética. Assim como duas costas masculinas, pouco antes de encerrar o espetáculo, apareciam imóveis e petrificadas e em cujas extensões escorriam como água os outros dançarinos e dançarinas. Uma corredeira que analogamente correspondia aos movimentos que eu produzia para dar conta da fluidez de sentidos possíveis naquela experiência estética. Achava não existir forma fixa e perene possível. Só me restava colocar em constante busca por estabilizações de significação e duvidar das certezas que carregava sobre o que é um corpo, suas capacidades, suas formas, sua relação com outros corpos e contextos de aparição, entre outras dúvidas que eram esteios de aprofundamento do pensar. De resto só me era possível saber que minhas convicções deviam ser creditadas à luz da minha relação com as expressões e sons que me chegavam. Quer dizer que me restava alguns pontos de apoio para formular entendimentos e que deveriam ser os suportes de estabilidade compreensiva sobre o espetáculo.

Em suma, não se trata de constatar certezas – nem numa contemplação de uma obra coreográfica e nem na leitura de uma informação num mundo de alta movimentação em rede. Implica abrir-se às partes que compõe um espetáculo de dança (movimentos e formas) ou uma situação de disputa eleitoral (notícias e mensagens)para julgarmos o quanto podem ser significativos ou não para nossa apreensão e crítica. O quanto o desconhecido pode ser um desestabilizador de convicções obrigando-nos a colocar perguntas e reposicionar outras onde elas já existiam. Todavia, é preciso dizer enfaticamente que a abertura das convicções não deve ser feita de forma irresponsável. Ela pode conduzir a ideia de que a validade de uma certeza é absoluta ou insuficientemente estável aponto de tudo parecer verdade ou nada elevar-se a tal status. Nesse instante é preciso retornar à experiência no teatro para aprender com ela. A necessária revisão de minhas concepções sobre o corpo não ocorreram senão pela necessidade de ir ao palco – observar longa e atentamente o modo como dançavam e estabilizavam movimentos –, vir ao meu pensamento – para questionar o quanto o que eu acabara de ver impactava o que eu sabia –, para retornar de novo ao palco e, novamente, a mim mesmo a fim de nesse diálogo constante posicionar e reposicionar critérios de validação de perguntas e hipóteses. As perguntas são fundamentais e as respostas tem que ter a espreita uma nova formulação. A noção de corpo ganhava novos contornos nesse diálogo construtivo. Por isso, a produção de critérios para poder estabilizar o que é um corpo e seus componentes e o que deve ser uma disputa eleitoral, a veracidade das informações que a compõe seu jogo não significa simples negação do que chega a nós, mas também não acarreta numa atitude inconsequente de considerar tudo como possível. É preciso deixar-se afetar como num espetáculo para não “dançar feio”, mas não se pode também esquecer dos parâmetros com os quais uma crítica consagra ou não uma bailarina.