O BRASIL É UM PAÍS HISTÉRICO

GuilhermeZawa;

 

Pior do que ser um país que não sabe lidar com os problemas é um que faz de conta que eles não existem.

 

Lembro de ler sobre uma ONG (não consigo lembrar o nome para buscar no google, mas o nome não importa), essa ONG ligada ao meio ambiente fez a seguinte declaração: O Brasil nunca resolverá o problema na Amazônia. Ponto. Como podem estar tão seguros? Simples. O Estado Brasileiro não sabe quanto isto vai custar.

A sentença é curta, mas desvela muito sobre o modus operandi brasilis.

Como o leitor ou leitora construiria um casa sem ter um projeto? 

Já pensou na cena ridícula? Ou ainda viajar sem ter destino, preparar um jantar sem saber quantos serão à mesa. Enfim, você entendeu.

Tudo é projeto, pois tudo tem um objetivo e recursos limitados que acontecem na linha cronológica do tempo e por isso precisam de balizadores para saber se estão indo para o bom lugar. 

O contrário disso é o não avançar. Não importa o quanto se diga que se está criando movimento, pois não há movimento sem o desejo objetivo que faz movimentar.

Um objetivo entretanto, requer grandes doses de um ingrediente fundamental: a realidade. 

O Brasil está cheio de problemas que são sistematicamente negados. É um histérico que não consegue se olhar no espelho e cria cenários virtuais para não se haver com aquilo que tem que fazer.

No caso da ONG ela chegou a calcular com seus parcos recursos o quanto seria a estimativa. Mas eu poderia citar muitos outros casos iguais no histórico na política nacional. Aqui vai um: Reforma agrária. Os últimos governos gastaram uma década e não conseguiram dar um ponto final ao assunto. Algumas sugestões: mapear todas as terras passíveis de serem entregues à reforma em uma mapa aberto e disponível on-line, criação de um ministério temporário para coordenar a reforma (outros países sempre fazem isso. Terminou o que tinha pra fazer fecha e pronto), contratação de policiais para ajudar nos processos no campo e com inteligência para destacar aproveitadores e ainda coordenação com centros de formação técnica para ajudar os novos assentados a descobrir o que de melhor se pode plantar/criar e organizando todo mundo em cooperativas para que possam lucrar e se transformem realmente em uma força econômica. Como balizaríamos isso? Simples. Se depois de algum tempo a coisa está crescendo tanto que já tem até site na internet e se compra no mercado em uma embalagem bacaninha, como logo maneiro feito pelo filho(a) do ex-sem-terra, bingo! a coisa está organicamente indo para algum lugar que não é o mesmo que sempre foi.

Isso tudo é um monte de especulação minha e eu não sou nenhum expert em agricultura (até deixei uma planta no meu ateliê morrer), mas garanto que é uma proposta melhor do que muito político por aí. Por que? Pois ela tem um objetivo que fricciona com a realidade fazendo a própria realidade expandir suas fronteiras. Não se acomoda com o que o mundo é, mas se direciona para o que ele poderia vir a ser.

A arte sempre faz isso. Sempre tratando da possibilidade do vir a ser, embora nada seja ainda. Esse é um ato que semeia percepções saudáveis à qualquer perspectiva. Por mais ruins que sejam.

Aliás, tem mais uma coisa histérica que o Brasil não faz que é se haver consigo mesmo. Com suas dores.

A Alemanha tem o museu do holocausto. É uma maneira de falar da dor para poder superá-la.

Aqui não temos museu de nada. O Brasil não fala da ditadura. Não fala da escravidão (antiga e moderna). Não fala da violência. Talvez seja uma tradição meio católica de não fazer nada e ir para igreja rezar para uma força superior resolver as coisas por mim. Não sei, mas isso me parece histérico para cacete e o fato é que por aqui se dissolve comissão da verdade, se tira verba para o ministério que cuida da escravidão moderna e se tem candidato à presidência que afirma que donos brancos de escravos negros não tiveram culpa nenhuma em escravizar alguém conquanto que não fosse um europeu a entregar a “mercadoria”. 

Uma das coisas da histeria é não se haver com a consequência dos próprios atos. Aqui é a terra do “sim, estuprou, mas não matou” ou ainda “a propina não foi para mim, foi para meu partido”. Ações não reverberam tal qual onda concêntricas afetando todo o universo do viver. Só há a histeria autocentrada e gastando muitíssima energia para criar fugas e subterfúgios para não olhar para nada. Como um assassino que pego em flagrante diz: a culpa é da faca! 

Essa histeria se vê em todas as camadas sociais e não seria diferente com a arte e o fazer artístico. Há sempre a culpa do pincel, do lápis, da chuva; não se quer olhar para as dores com coragem e se cria todo tipo de fuga imaginária para não ter que lidar com a realidade concreta. No meio artístico a fuga mais usual é a da personificação com o próprio trabalho, isto é, o de levar tudo para o pessoal, assim, o foco sai para o trabalho em si e vai para algo do tipo “você não vê o quanto sou especial?”. Me parece um cenário parecido com o de políticos indiciados que se prestam à recandidatura através da autovitimização. “Eu sou honesto, isso tudo é uma intriga da oposição”.

E assim seguimos. Tropeçando em nós mesmos por uma estrada que não queremos olhar. 

 

Texto e imagem: Guilherme Zawa