O Estranho na Clínica e na Cultura

Coluna;MonicaNogariDamaceno

Apresentação e agradecimento

Uma rádio livre é o espaço exato para lançar mão da licença poética e unir três amores: psicanálise, música e escrita. Com algo de experimental, a proposta é refletir sobre um tema e ilustrá-lo com uma música. Desde os primórdios da humanidade a arte traduz, representa, ressignifica o que não conseguimos tocar com facilidade. Um convite para criar, mais do que um presente, é a presença de um interesse vivo nas palavras, possibilitando um destinatário e materializando um desejo.

E assim inaugura-se essa coluna com um tema crucial à clínica e teoria psicanalítica, que nunca deixa de ser atual e intrigante: o estranho que nos habita.

 

O Estranho na Clínica e na Cultura

Em tempos de ódio ao diferente um texto de Freud tem voltado a atrair atenção dos psicanalistas: “Das Unheimlich” (O estranho). A mais recente tradução da obra, com título de “O infamiliar” (Editora Autêntica) também contribui para que a discussão em torno do tema recobre o fôlego.

Com o auxílio da literatura, mais precisamente o conto “O homem da areia” de Hoffmann, Freud explora a sensação de estranheza que toma o humano diante de situações específicas. Desde ‘O médico e o monstro’ (Robert L. Stevenson, 1818) podemos encontrar muitos exemplares de obras que tratam do assunto, principalmente nos livros e nos filmes, como: O homem duplicado (José Saramago), O duplo (F. Dostoiewski), Janela secreta (Stephen King), Clube da luta (Chuck Palahniuk), todos adaptados ao cinema, este último no aclamado filme de David Fincher. Outra obra prima da sétima arte é ‘Persona’ de Ingmar Bergman.  E da literatura nacional, ‘Dom casmurro’, de Machado de Assis.

Freud atribui a sensação de estranhamento a algo familiar que foi reprimido, algo oriundo de crenças de nossos antepassados manifestadas no animismo, na magia, na onipotência de pensamentos e em outras formas encontradas pelos povos primitivos para se lidar com a morte e o inexplicável. Mas, principalmente, um outro tipo de material reprimido detém a atenção de Freud: aquele em que as origens estão nos complexos infantis e complexo de castração, estes mais resistentes e potencias matérias-primas para as repetições involuntárias e os medos.

Podemos nos perguntar por que esse tema suscita o interesse de tantos escritores e outros artistas, e o que ocorre é uma dupla suposição: seria a atração pelo estranho? Ou pelo familiar? Difícil se esquivar da divisão. Nessas obras os autores conseguem, de certa forma, atender aos dois senhores.

São muitas as maneiras de apresentação do estranho, pois seu cunho é subjetivo e atravessa o coletivo, e uma delas é a figura do estrangeiro, que seria aquele que encarna uma outra cultura e não fala a nossa língua. Saindo da literalidade encontramos desdobramentos da noção de estrangeiro: uma mulher, um recém-nascido, um louco, um analista. E as reações provocadas pelo estrangeiro podem variar de uma atração e sensação de estranhamento até sentimentos mais extremos e atitudes violentas. O que o diferente tem suscitado em nosso tempo? Xenofobia, feminicídio, encarceramento são alguns exemplos. Radimila Zygouris nos ensina que a figura do estrangeiro se situa na fronteira do subjetivo, do singular com o social, a pólis. A princípio o estrangeiro provoca medo e se o sujeito se ancora num discurso que chancela que o diferente é uma ameaça, o medo pode se transformar em xenofobia. A agressividade existe antes que um objeto externo possa ser reconhecido, é uma reação ao desamparo e à impotência inerentes aos primórdios da constituição motora e subjetiva, como tentativa de dominar estes estados. Segundo Radimila, o primeiro alvo da agressividade é o “monstro interior”. E o desconhecido é o que não pode ser nomeado.

Em contextos de polarização política o estranho se manifesta mais frequentemente e aquela parcela que ficou foracluída dos preceitos civilizatórios vem à tona. As possibilidades de diálogo se estreitam e conhecemos o lado mais sombrio das pessoas, geralmente projetado no outro, um inimigo é eleito e apontado como a causa das mazelas do mundo. Uma defesa infantil para nos desresponsabilizar. O escolhido é forjado nos moldes da diferença, seja por ideologia, crença, nacionalidade, raça, orientação sexual, gênero etc. Quando as possibilidades discursivas se esvaem resta a violência, e a ameaça imaginária passa a ser real.

Quando um sujeito inicia um processo de análise encontra a possibilidade de começar a nomear esse desconhecido tão familiar. O estranho se manifesta na clínica de formas variadas: “esse não sou eu”, “jamais imaginei que seria capaz de fazer isso”, “eu perdi a cabeça”, “não costumo fazer aquilo”, “parece que tenho dupla personalidade”, “pareço a minha mãe (meu pai)”. A pessoa estranha algo em si, faz uma interrogação e a partir daí uma nova trilha pode ser aberta em meio ao matagal do desconhecido. Três recortes clínicos ajudam a ilustrar esse fenômeno tão presente nos consultórios dos analistas e instituições:

um homem atribuía a seu alter-ego todos os seus desejos sexuais e pensamentos obscenos, enquanto no seu dia-a-dia ocupava-se em manter as coisas simétricas e limpas, incluindo seu corpo. Sentia nojo dos fluídos corporais e apresentava sonhos de assepsia e pureza. Com o trabalho de análise pôde fazer uma espécie de “integração” do duplo e ficar livre para viver um relacionamento afetivo;

outro paciente, um garoto muito amoroso e pueril que por vezes apresentava importantes crises de raiva e agressividade se questiona: “acho que sou mau”;

numa instituição psiquiátrica, durante uma assembleia, um paciente com diagnóstico de esquizofrenia, em crise aguda começa a discursar de forma delirante e desagregada com o contexto e um outro paciente, este com diagnóstico de dependência química, muito alterado questiona: “o que ele está fazendo aqui? Não é o lugar dele. Eu não sou louco igual a ele.”

Esses exemplos demonstram o quanto o mundo interno de um sujeito é vasto e propenso aos conflitos, dilemas e defesas. Os fenômenos sociais são desdobramentos dessas experiências e, como mostra a história, podem tomar proporções avassaladoras nos colocando diante do horror.

Além da literatura, a música também explora de forma vasta o assunto e transforma o desconhecido em arte com suas poesias e melodias. São tantas as opções, mas uma delas vem instantaneamente, como se a força de suas palavras invocasse um entroncamento com a psicanálise. E como não ser capturado?

Gilberto Gil compõe Back in Bahia em 1972, logo após o retorno do seu exílio na Inglaterra. A música, uma fusão de rock e repente, fala dos contrastes entre sua terra natal e a cidade onde se manteve exilado por cerca de três anos, Londres. A prisão seguida do exílio político ocorreu logo após a implementação do AI 5 no Brasil sob acusação de Gilberto Gil e Caetano Veloso incitarem a juventude à rebeldia. Os versos tratam de saudade e esforço para manter a lucidez diante de uma situação imposta pelo autoritarismo. Em alguns trechos a questão do estranho parece emergir em toda a poesia de Gil:

“…digo num baú de prata porque prata é a luz do luar

Do luar que tanta falta me fazia junto do mar

Mar da Bahia

Cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar

Tão diferente

Do verde também tão lindo dos gramados campos de lá…”

O verde é esse elemento significante, tão diferente e que ao mesmo tempo remete a algo extremamente familiar que é o mar da Bahia.

“Ilha do norte

Onde não sei se por sorte ou castigo dei de parar

Por algum tempo

Que afinal passou depressa, como tudo tem de passar

Hoje me sinto

Como se ter ido fosse necessário para voltar

Tanto mais vivo

De vida vivida, dividida para lá e para cá”

Talvez Gil nunca saiba se foi sorte ou castigo, provavelmente os dois. Vivenciar uma cultura estrangeira à nossa é uma experiência enriquecedora, mas também pode ser angustiante se afastar das referências, pessoas e lugares que são pontos de ancoragem e segurança. Como um bebê que se afasta da mãe (essa primeira estranha familiar), descobre algo lá fora e volta para contar. A vida vivida é sempre dividida, senão é empobrecida, limitada, escondida.

A discussão a partir do tema do estranho é essencial nesses dias em que presenciamos todo o tipo de violência, crescimento do autoritarismo e descredibilidade do conhecimento. A faceta mais nebulosa dos sujeitos manifestada no social impõe um ritmo inebriante em que o instante de ver é seguido pelo momento de concluir, suprimindo o tempo de compreender, tão necessário à constituição subjetiva, construção de laços e produções discursivas. E para você, quais são os preceitos considerados como pilares do processo civilizatório?

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Fédida, P. O sítio do estrangeiro. São Paulo, Escuta,1996.

Freud, S. (1919) O estranho. Edição Standat Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud, vol. XVII. Rio de Janeiro, Imago, 1969

Koltai, Caterin (Org). O Estrangeiro. São Paulo, Escuta, 1998.

Koltai, Caterine. Política e psicanálise. O Estrangeiro. São Paulo, Escuta, 2000.

Zygouris, R. De alhures ou de outrora ou o sorriso do xenófobo. In: Koltai, C. O estrangeiro. São Paulo, Escuta, 1998.