O fim da Som Livre


Colocada à venda pela Globo, a gravadora mais importante do Brasil leva consigo algumas das melhores histórias da música brasileira de todos os tempos

João Araújo (1935-2013) começou na indústria musical aos 14 anos, na Copacabana Discos, a convite de seu cunhado. Sua função era auxiliar de imprensa. Alguns anos depois, integrou a equipe da Odeon. A seguir, tornou-se diretor artístico da Phillips, e ajudou a mudar a cara da música brasileira de então. Lançou Gal costa, Caetano Veloso e  Jorge Ben. Já era considerado pelo fim da década de 1960 o grande descobridor de talentos do Brasil.

Em 1969, apoiado pelo suporte empresarial das Organizações Globo, Araújo fundou a Som Livre. A gravadora nasceu inicialmente visando o lançamento de trilhas sonoras das novelas da TV Globo, braço principal e mais forte das empresas comandadas por Roberto Marinho.

O primeiro lançamento, entretanto, se dá apenas em 1971, com a trilha da telenovela O Cafona, estrelada por Francisco Cuoco, no horário das 22 horas — era a chamada “novela das dez”. Todo o material era inédito, de artistas nacionais. As trilhas venderam como nunca. Mas o endereço do então pacato estúdio na rua Assunção número 443 em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, estava fadado a algo muito maior.

Em pouco tempo, a Som Livre alternava a produção de trilhas de novelas com o lançamento de álbuns de novos artistas. Verdadeiros ícones como Novos Baianos, Rita Lee e Djavan tiveram seus álbuns mais clássicos lançados pelo novíssimo selo. Não ficaram de fora nomes alternativos como Joelho de Porco, Casa das Máquinas, Guilherme Arantes e Zé Rodrix. E mesmo trilhas sonoras como as de Saramandaia e Pecado Capital são disputadas em sebos até hoje, devido à alta qualidade de seu conteúdo.


João Araújo foi casado com Lucinha Araújo. Tiveram um filho único, Agenor de Miranda Araújo Neto, mais conhecido como Cazuza. O talentoso garoto teve por incentivo de Ezequiel Neves, diretor artístico da gravadora em 1982, o primeiro disco do Barão Vermelho gravado nos estúdios em Botafogo. Cazuza faleceu em 1990, vítima da aids. Araújo nunca se recuperou por completo da morte do rebento.

Em meados da década de 1980, a Som Livre se associou à RCA para servir a uma quantidade industrial de sucessos musicais liderada por Michael Sullivan e Paulo Massadas. Processo que culminaria na avassaladora máquina de vender discos chamada Xuxa. Até chegar ao padrão que todos se acostumaram a ver: de excessivo perfil comercial, em que a gravadora atém-se novamente às trilhas de novelas e o lançamento de nomes comerciais de gosto duvidoso. Araújo faleceu em 2013, aos 78 anos.


Desde então, a Som Livre vem mantendo como contratados alguns ídolos como DJ Marlboro, Thiaguinho, Michel Teló e Luan Santana. No começo de novembro, a Globo anunciou que está se retirando do negócio da música e colocou a gravadora à venda. A empresa passará a focar no conceito D2C (direct to consumer). Em nota recente emitida pela organização, o diretor Jorge Nóbrega afirma que a Som Livre “é um negócio extremamente sólido e rentável”.

Uma óbvia cascata. Há duas décadas o mundo das gravadoras vem passando por um turbilhão que praticamente as levou à falência. Apenas quatro majors ainda mantém suas atividades no Brasil, e a Som Livre é a terceira colocada entre estas. Após o anúncio, ainda não há previsão para a conclusão da venda. Muito provavelmente o acervo será tocado e administrado por alguma das gigantes do streaming mundial.

Fica a história de alguns dos momentos mais importantes da música brasileira, em cuja assinatura podia-se ler o sugestivo — e muitas vezes verdadeiro — termo “som livre”.

Fotos: reprodução

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Trilha Sonora Pecado Capital (1975)