O Homem de Seis Milhões de Dólares. Biotecnologia das telas para a realidade


Seriado que marcou gerações inspirou o desenvolvimento da ciência, que já apresenta no século 21 elementos de realidade

Locução masculina, em off : “Steve Austin, astronauta, um homem semimorto. Senhores, nós podemos reconstruí-lo. Temos a capacidade técnica para fazer o primeiro homem biônico do mundo. Steve Austin será este homem. Muito melhor do que era. Melhor, mais forte, mais rápido”.

Vídeo: imagens da queda de um avião da Força Aérea dos Estados Unidos, com descrição do acidente. Um “homem semimorto” em uma mesa de cirurgia. Braço direito, duas pernas, olho esquerdo. Takes computadorizados. E a imagem do tenente-coronel Steve Austin mirando, correndo, levantando peso e saltando, em testes.

Logo após a novela das oito, as noites de sábado de quem teve infância nos meados dos anos 1970’s eram invadidas pela descrição audiovisual acima. O Homem de Seis Milhões de Dólares (Six Million Dollar Man), estrelada por Lee Majors, foi uma série produzida e exibida pela rede americana ABC, entre 1974 e 1978 (no Brasil, a partir de 1975 até 1979), como desdobramento de um longa-metragem televisivo de 1973, e baseado num best seller escrito por Martin Caidin (Cyborg, 1972), que teve cinco sequências em livro, todas muito bem vendidas.

O filme tinha o título de Cyborg: The Six Million Dollar Man. No Brasil, algumas emissoras (mais notadamente a TV Bandeirantes) utilizaram o nome Cyborg para a exibição da série, pelo qual ela foi predominantemente conhecida no país.

Em 1975, Steve Austin ganhou uma companheira, a Mulher Biônica, exibida a princípio como episódio, The Bionic Woman, que versava sobre uma tenista profissional, Jamie Summers, interpretada por Lindsay Wagner, a qual sofre um acidente e tem comprometimentos físicos semelhantes aos de Austin. Ao invés do olho esquerdo, ela tem a audição de um dos ouvidos perdida. Tal e qual recuperada pela agência OSI, que salvara o homem, com força, velocidade e audição sobre-humanas, Summers no entanto acaba morrendo ao final do episódio. Mas seu sucesso foi tanto que acaba revivida por criogenia em 1976, ganhando daí uma série própria. Hoje, tais desdobramentos são chamados de spin off.

A série com os agentes biônicos da OSI – Office Scientific Intelligence (Departamento de Inteligência Científica), comandada por Oscar Goldman (Richard Anderson) se tornou uma febre mundial, muito especialmente no Brasil. A audiência era considerável e todo mundo sabia e versava sobre o coronel Austin e sua parceira Jamie. Cientes disso, os espertos executivos da ABC não deixaram de promover um episódio memorável na qual a Jamie Summers canta a balada Feelings, do brasileiro Morris Albert, um verdadeiro hit daquela época.

 

A verdade é que é tudo muito ruim. Algumas curiosidades revelam a precariedade com que eram feitas as coisas para a televisão naquela época, que por óbvio não contavam com a mesma verba milionária do cinema — em que pese a ironia do “preço” do homem descrito no nome do seriado.

Feito em três blocos de cerca de 18 minutos cada, os “efeitos especiais” mais sofisticados, que consistiam de um salto alto de 20 metros executado por Austin ou Summers, bem como uma corrida de 90km por hora (o limite de velocidade do homem biônico era e 97 km/h) bem como o levantamento de um carro ou objeto muito pesado, eram limitadas a duas sequências por episódio. Isso é fácil de conferir, assistindo. Os roteiristas tinham que se virar. Deviam escrever a história de forma que apenas duas vezes em um mesmo episódio haveriam cenas de força e velocidade dos protagonistas. Soava engraçado.

 

Mas o argumento é excelente. A biotecnologia é das frentes mais estudadas e aplicadas hoje em dia pela ciência avançada em todo o mundo. Ainda timidamente, já foi possível prover visão parcial a cegos de nascença, já está em grande avanço a criação de braços e pernas mecânicas que podem devolver movimentos a pessoas que perderam membros em acidentes, bem como a já muito aplicada tecnologia dos transplantes e tudo o mais.

Um dos exemplos mais emblemáticos ocorreu com o notável pianista brasileiro João Carlos Martins, que desenvolveu uma doença atrofiante e degenerativa nas mãos, algo que o obrigou a parar de tocar. Recentemente, Martins pôde retornar às teclas do piano graças a um par de luvas mecânicas que devolveram o movimento a suas talentosas mãos. Tudo ainda muito em fase de testes. Mas já uma realidade em muitos casos. Infelizmente, seis milhões de dólares é muito pouco para o desenvolvimento de qualquer pesquisa realmente séria na área, em cifras atuais.

Um autêntico galã canastrão, Lee Majors ainda fez algum sucesso no seriado de comédia Duro na Queda, no qual interpretou o dublê de cinema Colt Seavers, que nas horas vagas resolvia crimes por conta própria, uma espécie de caçador de recompensas. A série, também exibida pela ABC, durou de 1981 a 1986. Majors formou com Farrah Fawcett (a primeira loira de As PanterasCharlie’s Angels, 1976) um dos casais mais famosos de Hollywood naquela década. Seu casamento acabou em 1980, após Fawcett se envolver em um caso extraconjugal com o ator Ryan O’Neal, amigo de Lee.

Lindsay Wagner estrelou muitos filmes e séries. Participou recentemente da 14ª temporada de Grey’s Anatomy, no episódio Fight for Your Mind, número 22 da temporada, onde viveu a mãe de Alex Karev (Justin Chambers). Mas sempre será lembrada como a tenista e agente Jamie Summers, e pela interpretação de Morris Albert. Oh oh oh feelings

Fotos: reprodução

Ouça. Leia. Assista:

Jamie Summers (Lindsay Wagner) interpreta Feelings.

Abertura de O Homem de Seis Milhões de Dólares.

Abertura A Mulher Biônica.

Longa- metragem Cyborg: The Six Million Dollar Man.

Cyborg (série de livros, por Martin Caidin, em inglês)