O medo e o cansaço também são estratégias: fique bem!

JuanaDobro

Eu não sei como começar a escrever esse artigo porque essa semana está pesada. Os dois últimos anos foram bem pesados, em diversos aspectos (políticos, econômicos, sociais e emocionais). O bolso (e o bolsoNARO) que o digam. É tanto “bolso” vazio que nem sei por onde começar.  Mas acho que não sou a única nesse bote tentando sobreviver. Aqui sentada, escrevo. A televisão em minha frente, desligada, reflete o rosto cansado de mãe e mulher. Tem poeira por todos os lados da casa. A respiração pesa. Uma pequena fresta na janela deixa o ambiente ainda mais frio. Dá para ouvir a chuva lá fora, que acalma mas nos faz lembrar: são tempos difíceis. Sinto vontade de chorar. Em alguns momentos, o medo sobrepõe o desejo de lutar, resistir e continuar. Mas em meio a toda essa depressão aguda movida pela ignorância coletiva das pessoas, lembro de tantas frases, poemas e crônicas, músicas, filmes, que me salvam de hora em hora. Como essa deixa linda, do célebre Stanlislaw Ponte Preta, que diz assim: “Imbecil não tem tédio.” Talvez isso dê mais ânimo para algumas pessoas que parecem incansáveis e com tanto poder para assumir tudo ao seu redor e, porquê não, cargos políticos, campanhas, vitórias, sofás e palcos. Esses “lugares” são mais comuns aos imbecis (há exceções).  Em contrapartida, cito ainda, Simone de Beauvoir, “a morte parece menos terrível quando se está cansado”. Essa fadiga tira de cena muita gente incrível, pessoas que muitas vezes poderiam fazer a diferença, mas se sentem enfraquecidas. Eu estou cansada e vocês?

 

Esgotou. Acho que escrever algo também não faz mais sentido. Quem lê? Quem ouve? Quem está disposto? Quem sou eu para ditar alguma regra ou defender algo no meio desse avalanche de “pessoas de bem” defendendo (com apoio de igreja e outras instituições) as piores atrocidades e violências em nome da família brasileira, das morais e bons costumes. Qual a minha bolha? Tem como viver fora dessa bolha? Qual a sua bolha? Blablablá blá. Não é tão difícil cair no desejo de que arma é solução (triste realidade). Se hoje eu tivesse uma arma na mão pensaria várias vezes em atirar – em mim mesma, jamais no outro. Na real o que nos difere não é tão distinto, mas pode ser oposto (valores), e não está nos livros. Não é academicismo, intelectualidade, dinheiro, privilégios, mídia, ego. É a sabedoria. E sabedoria vêm de diversas formas, mas nunca dos excessos (ou talvez sim, não sei).

 

“A dúvida é o princípio da sabedoria”, falou Aristóteles. Aqui, Aristóteles nos diz uma coisa muito importante acerca do questionar, do “sabatinar” as coisas. A partir da dúvida nasce o princípio da sabedoria. Agora, afirmo a muitos facultados, magistrados, até mesmo um aprendiz, que está na sua formação acadêmica: se você não questionar, se você não indagar, se você não sabatinar, você será sempre uma pessoa escrava do pensamento alheio. E muitos dizem por aí que questionar tudo é coisa de louco, é coisa de pessoa radical. Será? Como tudo começou? Não foi a partir do questionar? Como nasceu a ciência? Sócrates, por sua vez, dizia que a sabedoria vem do autoconhecimento e resulta na prática do bem. Para Sócrates, ninguém adquire a capacidade de conduzir-se, e muito menos de conduzir os demais, se não possuir a capacidade de autodomínio. Depois dele, a noção de controle pessoal se transformou em um tema central da ética e da filosofia moral. Também se formou aí o conceito de liberdade interior: livre é o homem que não se deixa escravizar pelos próprios apetites e segue os princípios que, por intermédio da educação, afloram de seu interior. Mais atual do que nunca, cito ainda, Monja Coen de Souza, ela nos revela que na tradição budista existe um nirvana, estado de paz que só acontece quando há sabedoria. No nirvana você vence a dualidade, se torna uno com o que acontece e com o que é. Nesse uno, nada falta. A propaganda nos induz a ter desejos insaciáveis, mas quais são as minhas necessidades? Devemos ter poucos desejos. A questão da felicidade está conectada com esse conhecimento de si. Quando o psicanalista Tales Ab’Saber em seus maravilhosos textos fala que a psicanálise é a disciplina do conhecimento das contradições, podemos dizer que só ela explicaria o momento. Se o princípio geral que moveria o homem seria o do prazer, num primeiro momento do Freud [1856-1939], esse princípio é contradito. É na tensão entre um movimento nunca realizado e o seu barramento que talvez esteja a sua verdade. Já na segunda tópica freudiana, tem-se uma coisa terrível: seríamos movidos pela pulsão de morte, o avesso do princípio do prazer. Esses são os temas da psicanálise, que revelam muito sobre esse “eu” que quase sempre nos frustra. Entendeu? (…). Deveria ser, mas não é compreensível para todos.

Em matéria para a BBC, a jornalista Renata Turbiani, escreveu:  “Apesar de não ter relação com as eleições, a edição de 2018 do Relatório Mundial da Felicidade também merece destaque. Produzido por pesquisadores independentes e organizado pela Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas (SDSN), ele revelou que o Brasil caiu seis posições no ranking dos países mais felizes, ocupando agora o 28ª lugar dentre os 156 analisados – o líder é a Finlândia e o lanterna, o Burundi. Trechos do documento citam que, por aqui, assim como em outros locais da América Latina, a percepção de corrupção generalizada, as dificuldades econômicas e os índices de violência contribuem para a perda na satisfação em relação à própria qualidade de vida. Levando em conta tudo isso, além da cada vez mais crescente polarização, as discussões acaloradas e a tensão por todos os lados, a questão que fica é: como lidar com os sentimentos negativos?”

Tendo em vista todo esses fatores, eu lhes pergunto: seria o medo uma estratégia (assim como a alienação imposta através da mídia/ entretenimento e da baixa qualidade educacional)? Assim como ocorreu nos EUA, com a vitória de Trump, não estariam nos convencendo de ideias fascistas e terríveis por meio de sentimentos de exclusão e derrota já previamente inseridos na sociedade? O tema do medo está presente na análise de muitos pensadores da política ao longo da história. O medo sempre foi utilizado como estratégia política e manutenção do poder, porém todas as experiências dos que ganharam eleições usando o medo se revelaram depois uma farsa. Para Maquiavel, o medo tem um papel fundamental na sociedade e na política em particular. Para ele, é mais seguro um governante ser temido do que amado “isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho”. Se os homens são ingratos, inconfiáveis etc., então se devem guiá-los não com benevolência, mas com a ameaça do “chicote”, assim, por medo, se submeterão e aceitarão a violência (contra quem o ameaça) e ela se institucionaliza. O medo produz uma aparente sensação de segurança por quem se sente protegido. Thomas Hobbes já parte do princípio que os homens no seu estado de natureza, têm um direito natural que é o direito à vida. Esse direito à vida pressupõe o uso de todos os meios necessários para a sua concretização, mas eles são naturalmente egoístas: “O homem é o lobo do próprio homem” é um de suas frases mais conhecidas. Para ele, o medo é próprio do estado de guerra, se não tiver algo que possa impedi-lo, as pessoas viverão como no “estado de natureza”, sempre em conflito, em constante insegurança. Para que tenha segurança é necessário que haja um pacto, um estado que possa garantir a segurança e a paz, transferindo o seu direito natural e esse estado passa a ter o monopólio da força, com o objetivo de garanti-los.

Se em outras eleições a esperança venceu o medo, nessa o quadro é diferente. Há um enorme descrédito da política e nas instituições democráticas de uma maneira geral, que associados ao (des)governo de Michel Temer e os seus retrocessos, em vez de levar ao engajamento, tem levado uma parcela importante do eleitorado à indiferença, de se abster ou votar em branco ou anular o voto. Além disso, se percebe nestas eleições a continuidade do discurso do ódio de muitos eleitores e desse candidato assustador (de propósito) que canaliza discursos preconceituosos, de intolerância, anti-petista e cheios de medo. Ao focar apenas na violência e (in)segurança, oculta outros problemas, não apresenta soluções, a não ser mais violência para combater a violência. E desta forma compõe o quadro propício para a continuidade da retirada dos direitos, que não é percebida pelos que o apoiam. Assim, o discurso da anti-política seduz parte do eleitorado e será decisivo nas eleições. Portanto, não tenhamos medo, nem cansaço. Vamos à luta! Avante, força na batalha!

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