O que vem de macho não me atinge

JuanaDobro;

Quantas “homoexplicações” vocês receberam hoje? Cedíssimo, eu estava levando a filha para escola, quando recebi minha primeira homoexplicação do dia. Um homem, que mal conheço, veio dar palpite nas redes sociais sobre minha posição política, sugerindo que ainda “há tempo de regenerar minha imagem e mostrar qualidade” (eu não pedi a opinião dele). Finaliza seu discurso pobre com o conselho: “Isso é que esperamos, torço por sua reabilitação”. Hein? Como? Obviamente, passei mal de rir. Mas gurias, isso é muito triste e é um problema grave que precisamos resolver na “sociedade”. Passamos por situações como essa o dia todo e muitas vezes nem percebemos ou, ainda pior, ficamos ofendidas, inseguras e/ou tristes, nos calamos. Não se abalem, o que vem de macho não nos atinge! Vamos nos ajudar e mudar essa realidade cotidiana (COTIDIANA).

“Você é mulher, deveria se preservar mais”, opinou o macho alfa. “Seja mais delicada, mais feminina”, ensinou o amigo conselheiro queridão. “Não discuta”, lhe disseram tantas vezes. “Vou te ensinar onde fica o ponto g”, disse o espertalhão. “Põe o carro nessa vaga que eu ajudo”, falou o gênio da baliza no banco de carona. “Vou explicar como se faz…”, resmunga o sabichão. “Nem todo homem”, exclamaram todos os homens.

Talvez vocês pensem que tudo isso soa meio radical e que devemos ser mais “amenas” com esses seres. Opa, o silêncio e a aceitação já nos fizeram pagar caro. O silêncio já encobriu violência doméstica, estupro, assédio. O silêncio nos faz desacreditar para parecer agradáveis. O silêncio nos tira, todos os dias, a oportunidade de termos participações igualitárias na política, na economia, na mídia, na educação, na ciência. O silêncio mata, apaga, deprime.

“Os homens explicam coisas para mim, e para outras mulheres, quer saibam ou não do que estão falando. Alguns homens. Toda mulher sabe do que estou falando. São as ideias preconcebidas que tantas vezes dificultam as coisas para qualquer mulher, em qualquer área; que impedem as mulheres de falar e de serem ouvidas quando ousam falar; que esmagam as mulheres jovens e as reduzem ao silêncio, indicando, tal como ocorre com o assédio nas ruas, que esse mundo não pertence a elas”. Esse trecho é do livro “Os homens explicam tudo para mim”, de Rebecca Solnit, lançado no Brasil em 2017, pela Editora Pensamento-Cultrix. Solnit nos tira o fôlego com esse trabalho. Dessa forma, posso dizer que esta é uma publicação bastante necessária sobretudo, em cenários odiosos, ignorantes e ameaçadores aos direitos (e vozes) das mulheres, como os que enfrentamos ultimamente. A leitura surge como um guia para entender o Mansplaining, termo cuja definição é atribuída a Rebeca Solnit após um episódio em que um homem tenta explicar para ela um livro que ela mesma havia escrito (ãhnn?). “Elimine sua mãe, depois suas avós, depois suas quatro bisavós. Volte mais algumas gerações e centenas de pessoas, depois milhares desaparecem. (…) Cada vez mais vidas vão desaparecendo, como se não tivessem sido vividas, até que você reduz toda uma floresta a uma só árvore, uma teia a uma só linha. (…). Há tantas formas de não existência feminina. (…). Algumas mulheres vão sendo apagadas aos poucos, outras de uma só vez. Algumas reaparecem. Toda mulher que aparece luta contra as forças que desejam fazê-la desaparecer. Luta contra as forças que querem contar a história dela no lugar dela, ou omiti-la da história, da genealogia, dos direitos do homem, do estado de direito. A capacidade de contar sua própria história em palavras ou imagens já é uma vitória, já é uma revolta”.

Para concluir esse desabafo, quero deixar aqui um abraço a todas vocês. Existe uma evolução nesse quadro e a consciência de muitas pessoas tem mudado. Existem pessoas que se empenham todos os dias para construir uma sociedade melhor, mais segura e justa para todos. As lutas feministas são imensas e mostram resultado (ainda que lentos). “Aqui está aquela estrada, talvez com mil quilômetros de extensão, e a mulher que vai caminhando por ela não está no quilômetro um. Não sei até onde ela vai prosseguir, mas sei que não está recuando, apesar de tudo – e não está caminhando sozinha. Talvez nessa estrada haja incontáveis homens e mulheres, e também pessoas de algum gênero mais interessante. Eis a caixa que Pandora tinha nas mãos e as garrafas de onde os gênios foram libertados; hoje nos parecem prisões e caixões. Nesta guerra morrem pessoas, mas não é possível apagar as ideias”. O mundo será melhor um dia. Fiquem bem!

 

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