O SELO

WagnerRengel

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O velho na sala ao lado assistia ao jornal nacional enquanto a água ia fervendo, balançando a tampa da chaleira, tactactac, exalando vapor pelo bico mudo e sobre ele um envelope que dançava guiado pelo menino. Como um maestro fazia e o envelope ia e vinha, subia e descia. No fundo a voz de Sidnei Moreira e ali só o estrebuchar da água e do ferro.

A dança era interrompida de tempos em tempos para verificar o processo de descolamento do selo e esfriar a mão que fervia junto.

O envelope aberto continha uma carta já lida. Não era de amor, talvez de amizade que trazia as notícias de outro lugar. O selo voltaria, depois de seco e o carimbo delicadamente apagado com uma borracha limpa, para sua terra de origem.

Já sabia ler e escrever e as contas eram o suficiente para saber que não tinha dinheiro para comprar um novo selo. Aquele já usado receberia novo carimbo do carimbador desatento, pois se olhasse bem, daria para ver os sinais de um carimbo antigo de outro lugar.

Casa de pouca conversa, pouca leitura. As cartas, o selo, o tempo de espera e o carteiro formavam seu mundo.Escrevia uma carta, colocava na caixa do correio perto da escola e então, era só esperar o efeito.

Palavras vindas de outros lugares chegariam dizendo talvez da vida bonita, dos amigos em comum, dos tempos de alegria. Palavras simples e de pouca poesia. Eram relatos vindos em papel bonito, pequeno, as vezes perfumado. E quanto menor, maior a sua decepção. Queria mais, saber mais. Mas, diziam apenas das rotinas ou alguma novidade pequena, sem efeitos para sua vida. Mas gostava mesmo assim, sentia-se bem e estimulado a escrever de novo.Reconhecia-se naquilo como âncora para continente e barco para fugas.

E escrevia como deveria ser, em folha fina para não pesar, em frente e verso. Escrevendo sobre tudo, filosofando, falando de si, como se falasse a um analista, sem saber.

Haverá um dia em que terá muita curiosidade em saber o que escrevia, pois esquecerá. Então, fará análise talvez para lembrar, talvez para esquecer, dar outro lugar às cartas, os selos, a distância, a dança, o velho, o jornal nacional…

 

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