Oito versos de um corte profundo


 

Se você não me queria / Não devia me procurar

Passaram-se meses e nada dele ligar. Deve ter esquecido da promessa, e aí ela tratou também de esquecer. Do samba não, o samba ela cantava em toda apresentação que fazia pelas boates de São Paulo. E o fazia de um jeito que nada tinha a ver com a gravação original de Linda Batista, que tanto sucesso fez no já distante Carnaval de 1952. Cantava como só Alaíde Costa canta, afiando a voz na pedra da palavra.

“Negro tem que cantar sambão”. Sempre que ouvia isso, Alaíde explicava que não se sentia à vontade cantando “coisas mais animadas”. Mantendo-se fiel à sua arte, em um sábado de 1970 ela foi ao programa Almoço com as Estrelas, da TV Tupi de São Paulo. Milton Nascimento, artista em ascensão no cenário nacional, também estava lá e cantou primeiro. Até que o apresentador Airton Rodrigues chamou Alaíde. O que você trouxe para os nossos telespectadores? Vim cantar um samba antigo de Carnaval, chama “Me deixa em paz”. Com vocês, Alaíde Costa, anunciou ele. Milton, que não conhecia a música, ficou hipnotizado com a interpretação de Alaíde. Ela acabou, ele foi até ela: olha, eu vou te convidar pra cantar essa música no meu próximo disco.

Não devia me iludir / Nem deixar eu me apaixonar

Quando ela acordou e abriu a porta do quarto, teve que se deter para não pisar sobre as fotos. O chão do corredor estava forrado de fotos. Fotos de quando se conheceram, cenas de duas ou três viagens, de jantares a sós ou entre amigos, de pores do sol à beira da praia. Um mal-estar comprimiu seu peito e ela entendeu que precisava sair de lá naquele momento. Cada minuto mais que permanecesse ali, alimentaria nela sofrimentos adicionais e nele esperanças inúteis. Depois de fechar três malas, recolheu as fotos e deixou-as sobre o aparador próximo à porta de saída. Todas com a face voltada para baixo. Chamou o elevador e foi.

Evitar a dor é impossível / Evitar esse amor é muito mais

Até que o telefone finalmente tocou. Era o agente da sucursal paulistana da EMI-Odeon. Ele pediu que Alaíde fosse à gravadora retirar uma passagem de avião para o Rio de Janeiro, onde iria gravar com Milton Nascimento. Chegando ao estúdio no Rio, ela encontrou Milton e Wagner Tiso à sua espera. Wagner tinha feito o arranjo da faixa. Aliás, o arranjo já estava gravado, faltava só ela colocar a voz. Milton pediu que o técnico abrisse o áudio. O que Alaíde ouviu nos três minutos seguintes foi a tradução perfeita do desencanto contido naqueles versos. Desencanto que ficou ainda mais acentuado pela escolha de um andamento lento, marcado por uma batida grave e constante da percussão. Era como se um surdo de escola de samba estivesse ali para lembrar que aquela música nasceu nos morros cariocas, onde em fevereiro as pessoas jogam panos coloridos sobre a dor para poder brincar o Carnaval.

Você arruinou a minha vida / Me deixa em paz

De repente, o celular tocou aquele toque. Quantos infernos ele percorreu, até ser de novo ferido por esse som que há meses hibernava em seu celular e em sua alma? Encontraram-se sob o azul de um céu de outono. Não havia arrependimento, ela disse. O que aconteceu foi importante para que eu entendesse melhor as coisas, saber o que quero de verdade. A vida nos ensina, o sofrimento nos ensina mais ainda, e agora eu sei que podemos recomeçar de um jeito diferente, eu e você de novo, cada um respeitando o espaço do outro e compreendendo que… Não? Como assim? Você não acredita mais? Por quê? Eu tô aqui inteira tentando… O que aconteceu com você?

Já dentro de seu carro, ele esperou que o dela ganhasse o leito da rua, o sentido da estrada, as correntes marítimas. Excluiu o toque do celular. Deu play na música que não ouvia desde quando? Desde que encontrou o apartamento despido das roupas que ela usava, as fotos no aparador viradas para baixo, feito cartas de baralho num jogo de azar.

ME DEIXA EM PAZ 

(Ayrton Amorim e Monsueto)

Se você não me queria

Não devia me procurar

Não devia me iludir

Nem deixar eu me apaixonar

Evitar a dor é impossível

Evitar esse amor é muito mais

Você arruinou a minha vida

Me deixa em paz

SAIBA MAIS:

Os oito versos de “Me deixa em paz”, que estão entre os mais poderosos da música brasileira, foram escritos pelo compositor carioca Monsueto. Seu parceiro neste samba, o alagoano Ayrton Amorim, completou 99 anos de idade em setembro agora. Ayrton trabalhou mais como discotecário de rádio do que como compositor. Já Monsueto, que perdeu os pais muito cedo, era também pintor do estilo primitivista, ator, humorista e cantor. Compôs 135 canções, entre elas clássicos como “Mora na filosofia” e “A fonte secou”. Monsueto morreu de câncer no fígado em 1973, tinha apenas 48 anos. Em seus últimos tempos de vida, foi ajudado financeiramente por Martinho da Vila.

A cantora e compositora carioca Alaíde Costa tem hoje 84 anos e continua morando em São Paulo e trabalhando. Sua discografia soma mais de 20 álbuns. Atualmente, o rapper Emicida produz um novo disco da cantora que terá músicas inéditas de grandes nomes da MPB, algumas em parceria com Alaíde. Emicida teve a ideia do disco depois de assistir à live que ela fez no dia 13 de agosto, cantando músicas de Johnny Alf, outro que rejeitou a moldura restritiva do samba que a indústria cultural brasileira tentava impor aos músicos negros no século passado. Johnny Alf é considerado um dos gênios precursores da Bossa Nova, e Alaíde Costa era sua cantora preferida.

OUÇA:

No link abaixo você ouve “Me deixa em paz” na antológica versão de Alaíde e Milton para o álbum Clube da Esquina, lançado em 1972. Esse álbum é considerado um dos mais importantes da história da música brasileira, e até hoje influencia músicos do mundo todo.

As fotos de Monsueto e Alaíde Costa são de divulgação.

A primeira imagem é um acrílico sobre tela de Monsueto, pintado em 1968.