Oriente-se

JuanaDobro;

Que o ocidente e o oriente sempre estiveram muito ligados, não é nenhuma surpresa. Entretanto, se pararmos para ver com um direcionamento clínico, nos últimos duzentos anos é que essa relação se tornou mais próxima e somente no período pós-Segunda Guerra é que isso foi se tornando íntimo, a ponto dessas fusões convergirem em culturas muito simbióticas e exemplos não faltam. Nas histórias em quadrinhos temos a influência pungente de Walt Disney sobre a obra de Ozamu Tezuka, por meio da cultura dos “olhos grandes”. Na música, enquanto os Ventures e muitos astros da MPB (Os Incríves e Jorge Ben) ajudavam a lapidar o gosto dos nipônicos pela música pop ocidental, os Beatles, Rolling Stones – bem como outros muitos – recebiam a influência da Índia, tanto em sua musicalidade (vide “My Sweet Lord”, de George Harrison, e a cítara em “Paint It Black”, dos Rolling Stones) quanto em seu modo de vida. O Brasil não ficou longe desse boom, já que o secular clássico hindu, Bhagavad Gîtâ, tornou-se “Gîtâ”, pelas mãos de Raul Seixas e Paulo Coelho.

No cinema, contudo, intensas trocas ocorreram. Podemos citar a forma com que Akira Kurosawa passou a adaptar histórias Shakespeareanas para o Japão feudal: “Trono Manchado de Sangue” para “Macbeth” e “Ran” para “Rei Lear”; sendo também, por sua vez, recontado para o público ocidental por meio do cinema de faroeste: “Os 7 Samurais” que pelas mãos de John Sturges e William Roberts tornou-se “7 Homens e Um Destino” e “Sanjuro”, que na Itália, pelas mãos de Sergio Leone e Luciano Vincenzoni transformou-se em “Por Um Punhado de Dólares”. Da China, podemos citar a precisão dos antigos filmes de Jimmy Wang Yu, Hark Tsui e John Woo, facilmente comparáveis a Sam Peckinpah, em termos de ação e de movimentos de câmera; ou talvez a profundidade dos filmes de Ang Lee e Zhang Yimou, que podem figurar entre seus parceiros do cinema europeu.

Quanto à Índia, apesar de não termos tido acesso à produção Bollywoodiana, muito também foi-nos retratado por meio de filmes que a TV sempre reprisava. Se por um lado víamos a idéia de liberdade retratada em “Mogly, O Menino Lobo”, por outro lado nos constipávamos com o enfadonho, prolixo e insuportável “Passagem Para a Índia”, de David Lean. Contudo, nossa melhor imagem ainda é a do maravilhoso “Convidado Trapalhão” (The Party), filme de Blake Edwards, no qual Peter Seller vivia Hrundi V. Bakshi, um desastrado ator indiano convidado por engano à festa de um magnata do cinema de Hollywood e que, apesar de já ter pra lá de uns quarenta anos, continua atual.

Hoje, Bollywood ganha um destaque cada vez maior no ocidente, já que consiste na maior indústria cinematográfica do planeta. Também pudera, para atender um público de cerca de 1.2 bilhões de pessoas, haja indústria de entretenimento. Sua produção mais recente, “Quem Quer Ser Um Milionário”, caiu nas graças do ocidente e serviu como um novo marco do cinema oriental e vale lembrar que não seria nenhum exagero este filme figurar em nossas prateleiras ao lado do famigerado “Cidade de Deus”. Mesmo com direção de um inglês o filme revela a Índia. Ademais, após tanto trabalho ao logo de milhares de anos, a Índia merece ser reconhecida por seu trabalho cultural. Ah sim! Esqueçam da novela pândega e vão assistir bons filmes do oriente!

Além dos filmes indianos, temos profissionais da Índia competindo com um cinema de qualidade até mesmo nos estrelados estúdios de Hollywood, nos Estados Unidos. O diretor indiano M. Night Shyamalan deixou o público e críticos de queixos caídos com seu “O sexto sentido”, suspense que chegou a ser indicado ao Oscar, em 2009, em seis categorias, inclusive a de melhor filme. Logo de cara Shyamalan se tornou um Cult no meio dos cinéfilos. Entre seus filmes estão: “Sinais”, “Corpo Fechado”, “A Vila” e “A Dama na Água”, verdadeiras bombas para alguns, pérolas cinematográficas para outros. Outro filmaço seu, “Fim dos Tempos”, não é diferente, o estilo de filmagem único do indiano é visível do início ao fim da produção. Os filmes da Trilogia de Apu, do diretor indiano Satyajit Ray – A Canção da Estrada (1955), O Invencível (1957) e O Mundo de Apu (1959) – dialogam com o neo-realismo italiano, apresentando a Índia para além das paisagens. Belos e tocantes. Desse modo, na trilogia de Apu, tem-se o herói, herdado do melodrama, que precisa triunfar sobre as dificuldades impostas pelo abismo social que se lhe apresenta. Não ter assistido ao cinema ético do indiano Satyajit Ray, como diz Akira Kurosawa, “significa existir no mundo sem ver o sol ou a lua”.

Para informar um pouco mais, na Índia, convivem tanto as produções comerciais de Bollywood (faladas em hindi, língua majoritária no país), de Kollywood (segunda maior indústria, faladas em tamil) e de Tollywood (em telegu e em bengali), quanto expressões mais pessoais, em geral subvencionadas pelo governo, egressas da elite cultural, intelectual e financeira bengali: enquanto de um lado segue-se a fórmula de filmes de longa duração que, melodramáticos e sentimentais, misturam diversos gêneros (ação, comédia, romance, suspense) em tramas banais recheados por números de dança e de música, de outro lado há a influência marcante do cinema ocidental, seja Eisenstein (especialmente em Ritwik Gathak), neo-realismo – a exibição de Ladrões de Bicicleta em Calcutá em 1952, fundamental para a realização de A Canção da Estrada –, Jean Renoir (que, ao filmar O Rio Sagrado, tem Satyajit Ray na assistência de direção), ou as obras americanas de John Ford e de Orson Welles.

 

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