“Patriarcado e capital: uma aliança criminal”

JuanaDobro;DiadaMulher;

Para além do 8 de março, luta feminina vai de encontro com a luta de classes e o fim do capitalismo

 

No Brasil: uma mulher é vítima de estupro a cada 9 minutos; três mulheres são vítimas de feminicídio a cada um dia; uma pessoa trans ou gênero-diversas é assassinada a cada dois dias; uma mulher registra agressão sob a Lei Maria da Penha a cada 2 minutos. Os dados se somam a desigualdade salarial, a falta de autonomia na solitária e dificílima opção pelo aborto, os índices de violência doméstica (física e psicológica), o assédio sexual, o estupro, o preconceito, a objetificação da mulher na propaganda e nas redes sociais, o julgamento machista, o ranço paternalista e a impenetrabilidade da mulher nos círculos mais altos do poder e da academia. Esses são apenas alguns, entre tantos motivos pelos quais nós, infelizmente, ainda temos de guardar uma data especial para celebrar o Dia da Mulher. O objetivo, na medida em que políticas sociais vão sendo implementadas, é abolir a festividade de vez. Afinal, no dia em que houver creche dentro da empresa ou quando a grave questão das detentas que dão a luz enquanto cumprem pena for reavaliada, o 8 de março passará a ser uma efeméride obsoleta. Enquanto essa realidade estiver distante, a luta segue e é muito maior do que se imagina.

A conexão entre o patriarcado e o capitalismo é muito maior do que imaginamos. O capitalismo tem aperfeiçoado suas estratégias predatórias por várias décadas (séculos). E o estrago é imenso. Mas, vale ressaltar, que vivemos um momento muito delicado, com um crescimento assustador da extrema direita e muitas incertezas em todo o mundo. Se a tecnologia continuar avançando, com robótica e automação, os trabalhos como os conhecemos desaparecerão em um tempo muito curto. Podemos estar em um limiar de reformulação do sistema. Além disso, se algumas medidas não forem estabelecidas, como a renda básica da população, as crises que já tivemos podem parecer ridículas com o que irá acontecer no futuro. Porque, praticamente um grande setor da população, pode ser absolutamente excluído e marginalizado. Isso sem falar na questão da sustentabilidade, que tem a ver com as alterações climáticas e com as quais já existem situações verdadeiramente limitadas, crises ecológicas e crises urbanas.

Com a ascensão da ultra direita, ocorre uma ameaça aos direitos trabalhistas, humanos, sociais, econômicos, culturais e políticos, os quais foram conquistados por meio de lutas há muitos anos. Esse traçado está lado a lado à evidente justiça patriarcal, que idolatra os homens e lhes da liberdade enquanto criminaliza e aprisiona as mulheres. Mas quando falamos em aprisionar mulheres não devemos falar apenas das que se calam, se diminuem e se sujeitam a situações terríveis, por terem nascido, ou se tornado, mulher. Falamos também das encarceradas (um gravíssimo problema no Brasil). Negras, jovens, mães, solteiras e milhares. Atrás das celas do sistema penitenciário brasileiro estão 42.355 mulheres — 656% a mais em relação ao total registrado no início dos anos 2000, de aproximadamente 6 mil. Segundo o levantamento do Infopen, 62% são negras, 74% mães e 45%, apesar de privadas de liberdade, ainda estão sem julgamento. Desencarceramento e nova política antidrogas é também luta feminista.

Entretanto, não podemos entender a luta feminista sem o componente de classe e origem, que atravessa a maioria da população e nos oprime. Nem podemos entender um sindicalismo que não seja atravessado pelas questões de gênero. Para que a luta seja válida, é importante demais compreender que o patriarcado atravessa todos os âmbitos da vida, como a habitação, a educação ou o racismo. É por isso que defendemos que não pode haver as lutas sem assumir que todas devem ter no feminismo um dos principais eixos articulatórios. O feminismo não pode ser relegado à seção dos anexos.

Sendo assim, é recomendável que continuemos tecendo alianças entre as mulheres (lésbicas e trans), independentemente da sua origem ou raízes, e para criar redes de apoio mútuo e sororidade feminista no combater à opressão patriarcal: que a resposta e as propostas saiam das ruas e se concretizem. Finalmente, não vamos nos esquecer de todas as mulheres que lutaram e permaneceram invisíveis ao longo da história e agora se levantam para fazer suas vozes serem ouvidas. Sabemos que não estamos dizendo nada de novo, mas seguimos a luta para que isso já não seja mais necessário. O movimento feminista cresce a cada dia que passa e se consolida todo dia 8 de março. Para nós, não há outra opção: feminismo ou barbárie!

 

MANIFESTO FEMINISTA

Na semana do Dia Internacional da Mulher, lideranças feministas lançaram um manifesto contra o fortalecimento da extrema direita. O documento internacional foi divulgado nesta última quarta-feira, 6, e destaca a importância de lutar contra a intolerância e outras situações que tomam conta do mundo atual em função de um conservadorismo exacerbado, como o aumento dos casos de feminicídio, a desigualdade de direitos entre gêneros, a crise climática, o racismo, a segregação entre nações e mais.

De acordo com o texto, intitulado “Para além do 8 de março: rumo a uma internacional feminista“, estamos vivendo uma crise que extrapola os limites da economia, sendo política e ecológica também. É uma situação complexa e que coloca em risco o futuro das próximas gerações, principalmente das minorias.

O documento ainda faz um chamamento para que após este 8 de março (Dia Internacional da Mulher), grupos feministas e pessoas LGBTQ+ enviem uma resposta global à extrema direita, com reuniões internacionais e assembleias. O dia 14 também será muito significativo no Brasil, pois marca um ano da morte da vereadora Marielle Franco.