Precisamos de um paletó e isso é fato


Rua da Emenda, sede da Kotter Portugal / foto: Revista Pessoa/reprodução

Editora brasileira inaugura sua sede em Portugal nesta quinta feira. A lusofonia como fonte de inspiração e resistência é a chave para abertura de um novo mercado. Confira entrevista de Sálvio Nienkötter para o Cultura930

Sálvio Nienkötter é apaixonado por ópera. Aprimorou sua erudição musical no conservatório de Tatuí-SP, na década de 1980.  Foi acadêmico de Letras na UFPR e chegou a abrir um promissor comércio de piscinas antes de mergulhar fundo no mercado dos livros.

Com a Kotter Editorial, dedicou especial atenção aos clássicos da literatura universal e obras inéditas de cunho ensaístico, até concentrar-se especialmente à produção poética, e também ficcional. O universo da editora cresceu a olhos vistos na segunda metade da década atual, com indicações a prêmios e participações em festivais e feiras literárias em todo território nacional.

Mais de uma centena de autores publicados depois, Sálvio associou-se a um velho incentivador: a estrela da publicidade Marcos Pamplona, que além de redator das amenidades do mercado e aclamado diretor de criação, é também escritor de mão cheia, especialmente cronista e poeta. A parceria de ambos e um certo acaso do destino acabou por estender os tentáculos da cultuada editora para o outro lado do Atlântico.

Nesta quinta feira, abre em Lisboa a Kotter Portugal. O barulho realizado pelos livreiros curitibanos não poderia ser em local que não o Chiado, ali na zona central da cidade entre o Bairro Alto e a Baixa Pombalina, de tradição literária imensurável. A sede fica a meia quadra da praça Camões, na rua da Emenda número 72.

O Cultura930 conversou com Nienkötter, que descreve a empreitada, explica a questão da lusofonia e toda riqueza deste imenso leque em constante abertura que é a língua portuguesa. Onde o fato é paletó e o ato nos amarra, é fato que precisamos de um paletó, para evento tão fixe. Fiquem com o que de fato é: uma editora brasileira em terras de além-mar.

Cultura930 – Sálvio, conta pra gente como apareceu a oportunidade de abrir uma filial em Portugal? É uma antiga intenção da editora ou aconteceu de forma fortuita?

Sálvio Nienkötter – Então, nossas origens históricas e linguísticas nos atam naturalmente a Portugal. A leitura de Eça, Pessoa, mas principalmente Camões nos “jungem” pra usar um termo de gosto camoniano desde a genética cultural. Vir pra Lisboa é quase como voltar ao torrão natal. Por tudo isso a ideia de trazer a editora pra cá é tão antiga quanto a própria editora, embora parecesse algo muito difícil, pra não dizer impossível. Há um ano e meio a ideia se configurou, ganhou corpo, quase aconteceu, mas retrocedeu. Nesse ano, por meio do nosso mestre local, sempre ele, Octávio Camargo, conheci o Mário Alves, um português que tem dedicado sua vida à lusofonia no mais extenso conceito da palavra. Conversamos na casa de um amigo comum, o Vanhoni, e depois ele foi a minha casa e à editora. Alinhavamos tudo. A oportunidade definitiva surgiu com a transferência de um contumaz apoiador da Kotter desde seu início, o poeta Marcos Pamplona, para Lisboa. Fácil nos entendemos e resolvemos tocar a Kotter Portugal em consórcio. Recebeu-nos o Mário Alves e aqui estamos, associados a AcooperativA, tocada pelo Mário.

Cultura930 – A retórica que temos acompanhado desde o anúncio da Kotter Portugal, é do apreço pela lusofonia. Saramago adotava a seguinte postura quando de suas publicações nos demais países de língua portuguesa: ele não deixava que se adaptasse ao português local, confiando sempre ao leitor o original absoluto. Como a Kotter pretende trabalhar neste quesito? O original do autor, as adaptações ou cada caso é um caso?

SN – A premissa é de publicar tal qual foi criado o texto. O público mesmo, temos testemunhado, o exige, como forma de experimentar o que é próprio do linguajar do país do autor. Claro está que textos em crioulo, por exemplo, precisam no mínimo ser publicados de forma bilíngue, mas a ideia geral é essa que você coloca, e que sim, era imperativa para Saramago. Aliás, uma curiosidade, a neta do Saramago confirmou presença no evento de fundação da Kotter, e a Violante, sua mãe, virá aqui em setembro.

Cultura930 – A Kotter tem adotado claramente uma postura à esquerda do espectro político, pela defesa da democracia e contra o discurso do golpe instaurado pela mídia no Brasil. É uma postura corajosa, mas que coloca a editora de certa forma à margem da grande mídia. No entanto, a comunicação é fundamental para que o produto cultural se coloque no mercado. Qual a estratégia da Kotter? Funciona mais no boca a boca, há um planejamento de marketing específico? Qual o plano?

SN – O plano é claro. Veja, quem determinou o Brexit? A eleição do Trump, do atual excrementíssimo presidente do Brasil? Foram as redes sociais, o Youtube e o WhatsApp. A grande mídia pode se interessar por nós à medida que tenhamos relevância, se realmente a tivermos, digo. Mas nos importa mais os meios mais diretos de comunicação e, nesse sentido temos atuado. Na quarta-feira, por exemplo, vamos receber aqui para uma roda de conversa o Henry Bugalho, um youtuber que tem crescido muito e que na semana passada foi indicado por escritores como Paulo Coelho, por um lado, e por Xico Sá, por outro. Ou seja, alguém que é reconhecido em todos os espectros. Estamos estreitando com a Mídia Ninja e já temos um pequeno histórico com a TV247. Trata-se de algo orgânico, espontâneo, mas que tem rendido frutos excelentes e que, embora ninguém tenha compromisso contratual com ninguém, tende a crescer por causa dos interesses comuns.

Cultura930 – Falando em comunicação, como tem sido a recepção dos produtos da editora em terras lusas?

SN – Isso na verdade está bastante incipiente ainda. Trouxemos um exemplar de cada um dos livros mais vendidos pela editora, mas apenas para exposição. Aliás, fomos convidados a levar essa exposição a Paris, no dia 20 de setembro, por um editor português radicado em Paris há 45 anos. Os livros que vamos vender aqui, aqui serão impressos. Trata-se de um processo que cobra seu tempo. Nossa expectativa é entrarmos numa primeira normalidade no início de 2020. Até porque livro não carece de pressa, carece de cuidado, de atenção, e, porque não? Carinho. Se conseguimos alguma coisa em termos de Brasil foi pelo cuidado que tivemos na edição, propagação e distribuição que fizemos. Não teria sentido mudar isso aqui. A Participação em feira, inscrição em prêmios etc. será tudo tão igual quanto possível.

Cultura930 – Muito obrigado e parabéns. Se tiver algum recado extra ou uma mensagem para o pessoal aqui no Brasil, fique à vontade para enviar. O Cultura930 é o seu veículo.

SN – Tenho uma mensagem importante, a única necessária nessa hora: Muito Obrigado! A força que temos recebido principalmente de Curitiba, mas também de outros centros do Brasil é quase inacreditável, muito acima do nosso merecimento. Nossa obrigação é procurar devolver com afeto e dedicação. Agradeço a você pela oportunidade, a Cultura930 só tem crescido em importância para a cultura local e para além dos pinheirais.

Serviço:

Inauguração Kotter Portugal 

22 de agosto – quinta – 19 horas

Rua da Emenda, 72 – Chiado

Lisboa – PT