QUAL MÁSCARA USAR?

GuilhermeZawa;

Sobre fazer arte em tempos cinzentos.

 

De dentro da sala se ouve um assovio a chamar para a outra sala pequena onde se assentam imóveis três figuras mascaradas. Algo entre máscara de carnaval e promotor de brindes de fim de semana. O assovio, quase canino, quase guardador de carro, insiste em conclamar à participação do ato marcado para começar e divulgado através das redes sociais.

Eis que as três figuras saem da sala. Uma se desmascara aposentando a cabeça fantoche em um prego da galeria vazia. É o Dj que começa um som animado. As outras duas figuras dançam. Animadamente. É o Brasil do Samba e da Festa.

Subitamente a voz do presidente Temer começa a sair das caixas de som e propagar o crescimento da nação através de um discurso coreografado e muito bem escrito por assessores que talvez saibam que não convencem, mas cumprem bem o papel. Nesse momento é quando as figuras também aposentam as máscaras e revelam outra máscara que jazia por debaixo da primeira: uma máscara de guerrilha. Balaclava. Touca ninja. Precisamente neste momento o samba da espaço à ação e as duas personagens descolam da parede uma grande imagem impressa do referido presidente, recortada apenas com o rosto e com um sorriso à lá baterista do Rolling Stones. As duas colocam a imagem no chão e efusivamente imprimem sobre a imagem gestos de raiva à canetões pretos com um fluxo de consciência lexical rápido diante de toda a platéia que parece incentivar ao som do Dj. A imagem, então agora mascarada por camadas de grafos, é pendurada na parede para então ser fotografada na hora mesma e sequencialmente uma impressora posicionada dentro da galeria imprime cópias que são carimbadas pelo galerista e depois colocadas com fitas na parede logo ao lado. Todas com o preço de venda. Vinte reais. Faz também no cartão.

Esse ato acontecia dentro de uma galeria de arte no bairro São Francisco em Curitiba. Um dia antes uma sugestão popular fora apresentada ao Senado para acabar com a lei de incentivo à cultura. Três dias antes Nikolai viu um brasileiro na Rússia pela primeira vez e nem imagina a profusão de descabidos que acontecem em terras tupiniquins. Não imagina. Não se importa.

A perfomance Manifesto Digital, de Mariana Barros e Cíntia Ribas, materializava o ato realizado pela conclamação de um país que pede a luta. Desvelando que só há duas máscaras para se vestir no momento: de carnaval ou de guerrilha. De fantasia ou de realidade. De pão e circo ou de brado e punho.

A arte tem essas coisas de achar palavras para o ainda não palavrado e matéria para o não materializado. E assim, pequenos passos processuais vão enchendo a vida de significados que permitem a construção de sentido, que por usa vez, revelam o vazio humano que compele ao desejo que assovia chamando para se tomar parte da ação. Que ação? O ato de agir em direção do que ainda não foi direcionado.

Talvez viver no Brasil de 2018 seja variar entre ambas as máscaras. Até porque lutar dá um canseira danada, sobretudo, quando há mais coisas jogando contra do que à favor.

Pequenas ações artísticas, mas de grande impacto conceitual acabam por acontecer longe dos holofotes, de forma efusiva e pertinente, correlatando com o que de mais humano possamos estar vivenciando. Esta é a matéria na qual trabalha a arte: o que nos arrepia a pele, toca o coração e embrulha o estômago.

Está claro que caminhamos para uma sociedade centrada em modelos de arte e cultura pré-estabelecidos segundo uma lógica peculiar. Parece não haver mais espaço para o fora do eixo que faz pensar. O ex-cêntrico, ou ainda, desconhecidos alhures verdejantes. Não, o Brasil não quer olhar através da janela e quem sabe encontrar  possíveis respostas inovadoras para além do conhecido.

Vaza para a arte toda essa pulsão brasileira, carregada de uma carga de angústia por um país que nunca dá certo, permitindo certo alívio da pressão em forma de cristalizações do etéreo angustioso, que por sua vez, permite a formação da matéria capaz de invocar de forma sólida as dúvidas.

A cantora e ativista Nina Simone dizia que não há mais nada que um artista possa fazer do que refletir o próprio tempo. Concordo com ela, posto que, sobra ao artista a matéria prima da vida, o que inclui a sua própria, a dos outros e como essas se afetam mutuamente.

Assim, só nos sobra fazer arte política neste ano de Copa. Das mais nitidamente engajadas às mais sutis, estaremos em luta diante do que nos aguarda. Pelo menos até o Carnaval. Resta saber qual máscara vai ficar mais tempo em uso, a touca da anônima guerrilha ou a da já conhecida fantasia.

 

Crédito da imagem: Galeria AIREZ / divulgação

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