Quem vai pagar pra ver?


Crédito: Faena Rossilho

Um dos conceitos fundamentais para a Psicanálise é o de Pulsão. Freud explica que o objetivo da pulsão é realizar a descarga da tensão acumulada, ou seja, buscar a satisfação através de uma realização prazerosa ou evitando uma sensação de desprazer; e para que isso ocorra, a energia vai em direção a um destino e elege um objeto que funciona como uma espécie de intermediário na sua finalidade. Não podemos alcançar a dimensão da Pulsão na consciência, a não ser pelos seus representantes.  O objeto da pulsão sempre envolve uma determinada zona do corpo. O olhar é um desses objetos, privilegiado, diga-se de passagem, e a zona corporal, evidentemente, é composta pelos olhos. O olhar é diferente da visão, pois corresponde a uma realidade psíquica criada pelo sujeito.

O olhar é constituinte da nossa subjetividade, antes de olhar precisamos ser olhados e isso vai fazer parte de quem e como seremos. É o olhar que captura nossa imagem no espelho, provocando uma sensação de unidade corporal. Freud se interessou particularmente pela questão do olhar, essa  forma de representação da Pulsão que denominou “Pulsão escópica”, e a relevância que deu ao tema possibilitou investigar mais atentamente não só o papel do olhar no  desenvolvimento da subjetividade, como também nas manifestações patológicas associadas a ele, como o voyeurismo e seu par complementar, o exibicionismo.

Nos satisfazemos em olhar e sermos olhados, porém parcialmente. As satisfações pulsionais são sempre parciais. Não condescender a esta parcialidade significa nos colocar em risco por querer mais. Quem assistiu ao suspense  “Janela indiscreta”, de Alfred Hitchcock, sabe que o tédio do confinamento fez com que o protagonista visse o que não era para ser visto, envolvendo-o numa trama perigosa.

Devido à pandemia provocada pelo corona vírus, vivemos uma situação de exceção que convoca o olhar, mas, paradoxalmente, para algo que é invisível a olho nu. A favor das satisfações pulsionais, das necessidades particulares e da ciência, o homem cria instrumentos que auxiliam a nossa visão tão limitada: óculos, binóculos, lunetas, telescópios, satélites, microscópios. Quantos avanços puderam ser alcançados graças a eles! No que se refere ao campo da biologia, da medicina e da física astronômica seus valores são incalculáveis.  E o ser humano, insatisfeito por natureza, quer mais, para o bem e para o mal. Mal, nesse caso, se refere aos caminhos que levam ao excesso, ao gozo (no sentido lacaniano do termo).

Essa reflexão me remete à história de um apóstolo de Cristo, São Tomé, aquele que precisava “ver para crer”. Duvidando da ressurreição de Jesus, afirmou que precisava sentir as chagas para se convencer. Porém, ao ver Jesus vivo passa a processar sua fé.

Fazendo uma analogia com a história de São Tomé, será necessário sentir as chagas para que as pessoas se convençam da gravidade da situação que se impôs? Não podemos ver a olhos nus, contudo a precisão do microscópio já nos deu a ver o corona vírus, sua estrutura, seu sequenciamento genético, até as crianças o desenham e constroem narrativas a respeito. Será necessário passarmos da satisfação parcial da pulsão escópica para o gozo do olhar, em que o horror se desvela nos corpos amontoados em caminhões, cadáveres abandonados nas ruas, fome e indignidade?

O não querer saber, a negação do que revela o microscópio, os gráficos e os números pode nos colocar diante do pior do pior. Há uma expressão popular que diz muito nesse momento: “Pagar para ver”. E quem está disposto a pagar para ver? A satisfazer a pulsão escópica na sua radicalidade?  E com o que se paga? Com a vida?

Freud nos ensina, no seu texto genial “O mal estar na civilização”, que vivendo em sociedade, cedemos uma quota de nossa satisfação pessoal em troca de um pouco de segurança, senão seria a barbárie.

Nos atendimentos mais recentes, em modalidade virtual neste momento, tenho escutado uma questão que se repete: “não saber”, e a angústia que é se deparar com o que não se sabe. Não sabem quanto tempo vai durar tudo isso, não sabem o que vai acontecer, não sabem se vão atuar na linha de frente (no caso dos profissionais de saúde) e se forem, não sabem o que vão precisar fazer. As pessoas tiveram seus planos interrompidos, alguns foram sonhos construídos com muito investimento e expectativas e agora, além de vivenciarem a frustração, não sabem como vão fazer para reconstruir o que é do campo do desejo. Não sabem se estão exagerando nos cuidados ou negligenciando algo. Espirrei! Será que tenho COVID-19? Não se sabe…os sintomas podem ser muito graves ou leves, depende.

Realmente vivemos uma época em que, apesar dos esforços intensos da ciência, sabemos pouco e não sabemos muito. Exercício valioso ao psicanalista é o de não saber, o de não supor, o de não antecipar, para que fique livre para escutar, e daí algo pode advir do saber inconsciente. Saber e olhar são conceitos que se relacionam, sabemos um pouco e já vimos o suficiente, essas referências podem guiar nossas decisões nesses tempos de incertezas e, quem sabe, algo possa ser reinventado na nossa maneira de estar no mundo e de nos relacionarmos, e talvez ainda, uma diminuição da nossa onipotência e ilusão de que temos controle sobre a existência.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FREUD, S. A pulsão e suas vicissitudes. 1915

FREUD, S. O mal estar na civilização. 1930