REDES SOCIAIS: UM MUNDO DE IN(EX)CLUSÃO


A “Era digital” se estabeleceu! E com ela um universo de possibilidades e informações; um mundo muito próximo de uma democracia, onde as pessoas podem ter acesso a conteúdos do seu interesse, e mais, onde é possível expor opiniões pessoais e experiências numa verdadeira oportunidade de inclusão digital. Há espaço para todos, as chances se ampliam! Qualquer um pode criar seu blog, site, ou montar um perfil numa rede de relacionamento e, assim, tornar públicas suas ideias, do que gostam, o que fazem, como pensam. Quanta liberdade!

E nos consultórios dos analistas? Como essa realidade aparece e se configura? O que o mundo virtual suscita nos sujeitos e como incide em suas subjetividades?

Circula pelas redes um vídeo em que Ariano Suassuna fala para uma plateia, ele conta um episódio de um jantar formal oferecido a ele por um casal da “hight society”  por ocasião em que se torna um imortal da Academia Brasileira de Letras; durante a conversa, a anfitriã faz a seguinte afirmação: …“você naturalmente já foi à Disney”…; Ariano não havia ido a Disney, nem aos EUA, não havia sequer saído do Brasil. Com muito bom humor conta à plateia que a expressão “naturalmente” chama sua atenção. Ele, um imortal, um gênio, nunca foi à Disney.

Essa é uma passagem que ilustra de forma muito precisa o que tenho escutado nos atendimentos, nos discursos pronunciados no divã. O desaparecimento da alteridade é tratado como “natural”; os sujeitos sentem-se cada vez mais pressionados a se moldarem a uma horizontalidade sem que possam recorrer a uma instância superior que afirme “você é assim”, ou como dizia minha mãe “você não é todo mundo”. O produto desse fenômeno é uma angústia, um afeto doloroso, pois se trata da identidade dos sujeitos. O narcisismo primário, mais infantil, acaba sendo privilegiado em detrimento do narcisismo secundário, mais elaborado. A sensação de não pertencimento leva os sujeitos a uma errância que não dá conta de suturar o Real da incompletude. Todos precisam ser especiais ou, pelo menos, possuir algo de especial e, atualmente, as redes definem o conceito de “especial”. Ser diferente não é mais “cool”, para o sujeito se permitir ser uma alteridade precisa se justificar perante o Outro, não basta simplesmente “ser”.

Uma menina de 9 anos diz durante a sessão que ao invés das pessoas se abraçarem mandam um emoticon em forma de abraço, que não é a mesma coisa, mas as amigas fazem assim, mesmo estando ao lado umas das outras. Demonstrar um sentimento passa pelo aval desse Outro que é a tecnologia, o virtual. Esse formato de relação não é sem consequências: distancia os sujeitos, uniformiza as expressões, expõe ao olhar do Outro virtual constantemente.  O corpo passa a ser considerado apenas no seu aspecto imaginário e, muitas vezes, desprezado nos registros simbólico e real; fenômeno que conta com o auxílio de aplicativos como photoshop e filtros de todos os tipos, mecanismo a favor de se apagar as marcas, as diferenças e ignorar o que não é desejado.

Um outro paciente, na faixa de 30 anos, fala de seu objetivo de ganhar muito dinheiro e que considerando sua idade já deveria estar em outro “patamar”,(enquanto isso não conseguia sair da situação de torpor em que se encontrava). Quando questionado não sabia contar muito bem porque isso era tão importante para ele, porque “é assim que tem que ser”, dizia. Ganhar muito dinheiro não foi um valor transmitido pela cultura familiar. Essa conjuntura o angustiava com pensamentos dos quais não podia se esquivar. Ao ser desdobrada a questão, aparece um grupo de amigos como referência, que privilegia o status associado a determinadas condições materiais. O que chama a tenção é que se trata de um grupo de adultos, não de adolescentes. O paciente se coloca numa posição de homogeneidade em relação ao grupo, mas não “se encaixa”, se é que na verdade algum deles se encaixa, ou apenas representam um papel. Quando uma postura é correspondida ao lugar cobrado pelo Outro social a sensação é de um alívio temporário, que em seguida dá lugar à angústia novamente. Nesse processo o sujeito se perde, não consegue se separar do Outro, como se retornasse a uma fase anterior à da apropriação da imagem de si para uma fase alienante, vivida como morte subjetiva, afinal não é ele quem deseja e sim o Outro.

É interessante considerar o papel das redes sociais nessa discussão e do reflexo dessas ferramentas nas subjetividades. As pessoas passam a encarar o mundo do outro como ideal e o seu próprio vai sendo depreciado; e o que poderia ser utilizado como um lugar de discussão, formação de ideias e produção de vínculos se transforma num desfile narcísico gerador de mal-estar contemporâneo. Mal-estar travestido de bens de consumo, gadgets, desafios e experiências em que muitos ficam de fora e que servem para tamponar a mais humana das condições.

E o que cabe ao analista diante de toda angústia? Não há como se preparar e sim considerar que esse será um tema cada vez mais recorrente nos divãs, presente em todas as faixas etárias e neurotizante. Angústia produzida por um sintoma contemporâneo, mas que carrega um velho conhecido: o retorno do recalcado. O “estar de fora” de algo, os narcisismos, as idealizações, a inveja, o encontro com a falta, a submissão,etc. É função do analista escutar o mal-estar e dirigir o tratamento no sentido do encontro do sujeito com o próprio desejo, no caminho inverso: o desalienante.

Quando Tim Maia retorna ao Brasil após um período de perrengues e aprendizados nos EUA, encontra seus amigos do bairro começando a ter fama nas carreiras musicais. Roberto Carlos estava fazendo sucesso com a jovem guarda e Fabiano (como Tim chamava o cantor paraguaio Fábio)já desfrutava da áurea de galã, vivia rodeado de mulheres bonitas.Tim Maia, um nobre desconhecido, é desprezado por uns e acolhido por Fabiano, no sofá da sala. Quando os companheiros de casa viajam para shows,o solitário Tim se recolhe num quarto e mira no pôster pendurado na parede em frente à cama:um mar de azul infinito e uma bela mulher de biquíni. Pega o violão e assim compõe “Azul da Cor do Mar”.

O estilo próprio de Tim Maia é indiscutível;misto de talento, vivências e influência de black music, compunha como ninguém.  E aquela história de que a grama do vizinho é sempre mais verdinha, no caso de Tim Maia, pelo menos no que se refere à música, não confere.

 

Azul da Cor do Mar

Tim Maia

 

Ah! Se o mundo inteiro me pudesse ouvir
Tenho muito pra contar, dizer que aprendi
E na vida a gente tem que entender
Que um nasce pra sofrer enquanto o outro ri

Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar

Mas quem sofre sempre tem que procurar
Pelo menos vir achar razão para viver
Ver na vida algum motivo pra sonhar
Ter um sonho todo azul
Azul da cor do mar

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Amigo, S. Clínica dos fracassos da fantasia.Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 2007.

Freud, S. Sobre o narcisismo: uma introdução.Edição Standart das Obras Completas, VolXIV. Rio de Janeiro: Imago, 1914.

Freud, S. Psicologia das massas e análise do Eu. Edição Standart das Obras Completas, Vol XVIII. Rio de Janeiro: Imago, 1921.

Motta, N. Vale Tudo: O Som e a Fúria de Tim Maia. São Paulo: Objetiva, 2007.