Sean Connery: Nunca diga a um escocês que ele é inglês


O legado do ator escocês para além de James Bond. Connery teve origem humilde e grandes histórias antes e depois do Agente 007

O ator escocês Sean Connery começou sua vida olhando para o teto de zinco de um barracão nos arredores de Edimburgo. Terminou milionário, vivendo em uma vila de sua propriedade na Grécia.

Filho de um pai proletário, católico e de uma mãe faxineira, de origem protestante. Trabalhou como pedreiro, serviu a Marinha, dirigiu caminhão, era bom de briga — na Escócia todo mundo sai no soco como quem diz “bom dia” e “boa tarde” —, praticava musculação e fazia bicos como modelo em uma escola de artes, a Edinburgh College of Art.

Como todo escocês, jogava futebol. Diferente de todo escocês, entretanto, dizem que era bom de bola, e recebeu proposta para ingressar profissionalmente no Manchester United, clube do norte da Inglaterra. Mas o vírus da arte dramática já havia infectado o jovem. Sempre fazendo bicos, Connery já atuava por uns trocados em um teatro local.

Competiu pelo título de Mister Universo no ano de 1953, já em Londres. Atuou em pequenos papéis na tevê britânica e finalmente, em Lilacs in the Spring, de Herbert Wilcox, musical de 1954, aparece pela primeira vez na grande tela do cinema. Em Blood Money (Ralpoh Nelson, 1957), drama televisivo inglês, consegue seu primeiro papel principal, atuando ao lado de futuras lendas como Michael Caine. A película e a atuação do protagonista receberam elogios da crítica.

Por esta época, Connery já era um símbolo sexual na “ilha da Rainha”. Há um famoso caso em que um ciumento gangster chamado Johnny Stompanato invadiu o set de Vítima de uma Paixão (Sea of Love, Lewis Allen, 1958), armado de um revólver, a fim de matar Sean Connery, enciumado de Lana Turner, com quem fazia o par romântico, na primeira produção hollywoodiana protagonizada pelo jovem escocês. Connery o desarmou e imobilizou, até que fosse retirado do estúdio pela equipe de segurança da Paramount. Mal imaginava o jovem que esta cena real seria reproduzida dezenas de vezes ao longo dos próximos 30 anos.

Depois de longa busca por um ator que estivesse à feição de um conhecido personagem de pulps do escritor inglês Ian Fleming, Connery foi escolhido, a contragosto do autor, que não via nele o James Bond ideal. Os produtores Cubby Broccoli e Harry Saltzman, detentores dos direitos do Agente 007, foram convencidos pela esposa de Broccoli, Dana, que enxergou em Connery o James Bond perfeito. Fleming mudou de ideia assim que viu o resultado na tela, em O Satânico Dr. No (1962). A partir daí tudo mudou.

Sean Connery estrelou a maioria das produções para a franquia do Agente 007, e até hoje é considerado por grossa maioria como o melhor James Bond de todos.

Connery continuou estrelando algumas outras produções, com destaque para Marnie: Confissões de uma Ladra (Alfred Hitchcock, 1964), considerada obra prima do mestre do suspense.

Em 1969, resolve encerrar sua vida como James Bond. Entretanto, reconsidera a pedidos dos produtores e retorna em Os Diamantes São Eternos (1971). Daí dá lugar a uma década de Roger Moore no papel. Jurou nunca mais interpretar Bond, mas novamente cede e retorna em Nunca Mais Outra Vez (1983).

Recebeu um prêmio Bafta por sua atuação como Guilherme de Baskerville, em O Nome da Rosa (Jean-Jaques Annaud, 1985) baseado na obra de Umberto Eco. Um ano depois, encarna um policial irlandês durão em Os Intocáveis (Brian de Palma, 1987). Esta produção lhe rendeu o concorrido Oscar de Melhor Ator Coadjuvante do ano seguinte.

Em Indiana Jones e a Última Cruzada (Steven Spielberg, 1989) interpretou o pai de Harrison Ford. A curiosidade é que Connery é apenas 12 anos mais idoso que Ford. E ainda movimentou quarteirões nas bilheterias milionárias de sucessos como A Caçada ao Outubro Vermelho (1990), A Casa da Rússia (1990) e Armadilha (1999). Alguns fracassos em Lancelot, o Primeiro Cavaleiro (1995) e A Liga Extraordinária (2003).

Sean Connery faleceu enquanto dormia em sua casa na Grécia neste dia de Halloween em 2020, aos 90 anos de idade. Um escocês com uma história dessas não necessita maiores apresentações. Sempre louvou sua terra natal, e nunca gostou de ser chamado de britânico. Sempre dizia “sou escocês”. Nunca chame um escocês de inglês.  Especialmente com prerrogativas tão particulares.

Fotos: Reprodução (Sean Connery é o segundo da direita pra esquerda agachado, no time do Bonnyrigg Rose F.C., 1952)