Siga o líder!


Os fenômenos de massa como fuga da realidade

Quando um sujeito começa a se constituir, é tomado por um outro como objeto do seu desejo; objeto este que será investido (no melhor dos casos) de toda atenção, cuidados e significantes. Só podemos ocupar esse lugar de objeto do desejo para um outro porque algo lhe falta, logo, somos aquilo que falta ao outro, o que lhe completa, e este é um lugar especial, fálico. Porém, com o passar dos dias, vamos notando que quem ocupa o lugar do outro materno continua insatisfeito (também no melhor dos casos), buscando outros objetos, em outros lugares. A perda deste lugar de “objeto que completa o outro” não é sem consequências para os envolvidos na relação; para alguns vai abrir a possibilidade de ser também um sujeito desejante, para outros a reação é de uma renegação da falta, onde se mantém a crença de que se sabe do que o outro precisa. A perda do lugar fálico deixa como resto uma nostalgia, uma disposição de voltar a ser especial para alguém, mas por se tratar de um tempo mítico, não é possível ser restaurado, é o encontro com a castração. Renunciar a esse lugar é o que vai permitir que a vida siga, um movimento que depende dos recursos subjetivos de cada sujeito; alguns ficam mais ressentidos e, consequentemente, mais vulneráveis. A vulnerabilidade pode, facilmente, fazer com que o sujeito eleja uma figura para ocupar a posição daquele que sabe, que cuida, que conduz. Abrimos aqui, a reflexão para duas perguntas: “o que faz um líder”? e “quem faz um líder?”.

No centenário do indispensável texto de Freud “Psicologia das massas e análise do eu” (1921) podemos afirmar que este estudo dos fenômenos grupais se mantém extremamente atual. O que Freud discute é que a psicologia individual é, ao mesmo tempo, a psicologia social. Somos marcados pelo Outro da linguagem e da Cultura, que é encarnado por aquele que cuida, incorporamos seus traços e só podemos nos constituir como sujeitos na relação intersubjetiva. Dentro e fora não são tão delimitados assim quando se trata do inconsciente. O que diferencia a psicologia individual da social são as condições de manifestação e potencialização de impulsos reprimidos que esta última propicia. Em grupo o sujeito se torna capaz de atos que sozinho não faria, graças à redução do senso de responsabilidade individual. Neste trabalho, Freud nos guia no entendimento dos fenômenos que dão força a um grupo. Classificados pelos modos de operação, os grupos são divididos em dois tipos:

– grupos estáveis

– grupos efêmeros

Os grupos estáveis são altamente organizados, a ética grupal é mais elevada que a individual, há uma continuidade de existência grupal e estrutura definida por tradição, costumes e hábitos. A ligação emocional se desenvolve no grupo como um todo e existe diálogo e relação com outros grupos.

Nos grupos efêmeros o caráter é mais primitivo, os sujeitos se agrupam por um desejo infantil de retornar à posição de objeto fálico, pagando com a própria liberdade ao ocupar esse suposto lugar especial para alguém que, em contrapartida, oferece reconhecimento e segurança. A resposta da equação é um rebaixamento intelectual e uma intensificação das emoções, que provocam a desinibição das pulsões individuais, tornando os membros do grupo suscetíveis aos comandos do líder e ao sentimento de onipotência. E como anseia por obediência, a massa aceita aquele que se autoproclama como líder, com a condição de que sugestione os sujeitos e acredite nas próprias idéias, por mais delirantes possam ser, causando um efeito de hipnose grupal.

Quando constatamos que não somos tudo para o outro o efeito é de uma quebra, que jamais poderá ser recomposta; e os que não superam esse trauma ficam mais expostos ao discurso de que as coisas vão ser consertadas, pois existe alguém que sabe como fazer. Esse indivíduo, alçado à posição de perfeição, passa a ser um substituto do pai idealizado, reunindo qualidades superlativas, um modelo que ficará imune a qualquer crítica. O grupo, por sua vez, fica refratário a qualquer argumentação lógica, provas de realidade ou demonstrações de contradições. A partir daí, se estabelece uma relação imaginária entre liderado e líder, uma ilusão de que o líder sabe o que é melhor para todos, que entende os anseios de seu rebanho, que vai lutar por eles, que vai protegê-los e, principalmente, que ama a todos igualitariamente, gerando um sentimento de irmandade e a identificação entre os membros, mesmo que não se conheçam de fato. Essa articulação é potencializada pela seleção de um inimigo que deve ser odiado e combatido. Assim, o lugar narcísico do “eu sou especial” se reestabelece na fantasia. Porém, esta coesão é muito perigosa, como já pudemos constatar em diversos momentos na história, pois a massa replica as aspirações de Um, não discorda, não pensa, apenas responde aos comandos do líder.

E por que algumas pessoas são mais passíveis de aderir a movimentos de grupo nos moldes efêmeros (sem estrutura organizada, sem liberdade, autoritário)? Freud diz que um desejo irrealizado é fonte das fantasias e das ilusões. Uma pessoa frustrada e infantilizada pode facilmente projetar num outro as causas de seus fracassos; nesse sentido a solução seria eliminar o algoz e não precisar ter que se haver com o próprio desejo. Por outro lado, aquele que ocupa a posição de líder sabe onde se deposita a esperança dos membros do grupo, utilizando-as como instrumento de manipulação; essa esperança pode residir na solução para um desespero, no desejo de ser amado, de se sentir esperto, inteligente, de ter uma informação privilegiada, de estar incluído, entre tantas outras representações que um complexo de inferioridade pode assumir. O que estes sujeitos se esforçam para negar é a nossa falta de coesão interna, somos divididos, incompletos, contraditórios, e aceitar essa estruturação significa a aniquilação das ilusões infantis de heróis, dos ideais de pureza e bondade. Ao invés de administrar como se pode a cisão interna, o que os fenômenos de massa baseados em fantasias infantis provocam é a transmutação desta divisão para “nós” e “eles”, os “bons” e os “maus”, os “puros” e “pecadores”, os “certos” e os “errados”. Assim, mantém-se a coesão grupal nos moldes kleinianos, onde as características boas são introjetadas e as ruins expulsas ou projetadas. Muitos líderes políticos conhecem bem esse funcionamento e se valem dele em seus discursos, seduzindo uma parcela de pessoas ávidas por condução. Dizem quais são os valores morais corretos, o que é família de verdade, resgatam o saudosismo dos “bons tempos”, impõem regras sem debate.

Por mais paradoxal que seja, a condição para lidarmos com esta conjuntura universal que é o Real da incompletude, está num processo de construção subjetiva e não na resposta massificada. Pensar por si só é trabalhoso e muitas vezes solitário; exige conhecimento, leitura crítica e, principalmente, escuta da alteridade. E o fundamento de um grupo radical é sempre o apagamento da diferença.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

Freud, S. Psicologia de grupo e análise do ego. In: Edição Standad das Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976.

Czermak, M. Notas sobre as perversões em sua relação com a vida nos grupos. In: Paixões do objeto, estudo psicanalítico das psicoses. Porto Alegre: Artes Médicas, 1991.

 

Crédito da imagem: Faena Rossilho