Sobre o tempo


Toda a rotina estava sob controle.

Rotina semanal lindamente desenhada. Contas a pagar no calendário do celular. Atividades do trabalho controladas na agenda do Outlook e numa to do list analógica (o bom e velho caderninho). Aulas (como profe), aulas (como estudante), encontros da comunidade e textos para a coluna no meu mural – bem visível.

Próximo texto sai essa quinta, umas duas ou três ideias na cabeça, deixa só eu dar uma olhadinha no mural…

“Minha nossa! Minha nossa! Vou me atrasar!”, disse o Coelho Branco, lá no fundo da minha cabeça.

E foi assim que descobri que perdi o prazo; por uma semana.

Perdi o prazo. Perdi o controle… Perdi o controle do tempo.

Não sei você, mas sempre que eu sinto a pressão do tempo, eu lembro do Cronos, o Deus do Tempo da mitologia grega, sempre representado como um senhor duro e severo.

Mas, você tem alguma ideia de como Cronos conquistou esse “cargo” tão importante? Bem, dizem que foi castrando seu pai, Urano, o Deus do Céu, que “por acaso”, engolia todos seus filhos para que nenhum deles pudesse tomar o seu lugar. Terrível, não é mesmo? Mas não para por aí. Após ser castrado, Urano amaldiçoou o filho para que tivesse o mesmo destino que o seu. E assim, claro, Cronos passou a engolir todos os seus filhos também, com medo de ser deposto. “O tempo que tudo devora”, diz a analogia. Pois é, essa é a visão dos gregos do tempo natural e cronológico, o tempo dos horários e dos calendários. Que carga, que peso! E parece dizer muito sobre como nos relacionamos com o tempo hoje, não é mesmo?

Mas confesso que nesses momentos em que parece que o tempo nos engole, nos esmaga, raramente me lembro de Kairós, que é, infelizmente, muito menos conhecido que o anterior. Você já ouviu falar dele? Filho de Zeus e neto de Cronos, ele é o Deus do Tempo Oportuno. Dizem que está sempre nu e tem apenas um cacho de cabelo para frente na testa. Assim, se você o encontra de frente, você pode agarrá-lo. Mas, se ele passar, “nem mesmo Zeus pode trazê-lo de volta”. Essa é a visão grega do tempo de ordem existencial, com características de vivências e percepções.

E não há ninguém que fale melhor dessa percepção de tempo que Lewis Carroll, lá em 1865, através da voz do Chapeleiro Maluco, no maravilhoso Alice no País das Maravilhas:

“– Acho que você deveria gastar seu tempo fazendo algo melhor – comentou ela – do que desperdiçando-o com charadas sem resposta.
– Se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu – retrucou o Chapeleiro – não falaria dele como se fosse uma coisa. Ele é uma pessoa.
– Não entendo o que você quer dizer – falou Alice.
– É claro que não! – disse o Chapeleiro enquanto jogava a cabeça para trás com desdém. – Me atrevo a dizer que você jamais conversou com o Tempo!
– Talvez não – disparou com cautela Alice –, mas sei que devo bater o Tempo quando estudo música.
– Ah! Isso explica tudo! – exclamou o Chapeleiro. – Ele não suporta que batam nele. Agora, se você ficar de bem com ele, é capaz de fazer praticamente qualquer coisa com o relógio. Por exemplo, imagine que são nove horas da manhã, bem na hora de começar a lição: você só precisaria sussurrar uma deixa para o Tempo e ele adiantaria o relógio em um piscar de olhos! Uma e meia da tarde, hora do almoço!
– Isso seria maravilhoso, com certeza – comentou Alice, pensativa. – Mas então… eu estaria sem fome para o almoço, sabe.
–Talvez não a princípio – falou o Chapeleiro –, mas você poderia manter o relógio marcando uma e meia da tarde por quanto tempo quisesse.”

Ah! Que poesia. Esse momento, o agora, pode voar ou pode durar muito, muito tempo.

Kairós, o momento específico de algo, o breve momento em que as coisas são possíveis.

Presença.

Nas últimas semanas me peguei vivendo conforme dita Cronos. Temendo ser devorada por ele, o Deus implacável e às vezes, até mesmo cruel. Mas hoje paro. Coloco os dois pés no chão, fecho os olhos, faço cinco respirações profundas e abdominais (obrigada Samira). E me sinto pronta para escrever.

Seguro, carinhosa e firmemente, Kairós pela franja e escrevo. Vivo o presente, vivo a qualidade do tempo presente. E não vejo o tempo passar.

Amanhã?

“Batidas na porta da frente
É o tempo”… (Resposta ao Tempo, Nana Caymmi)

Bom, amanhã é um outro dia, um outro tempo que virá.