Somos Todos Crianças


 

Memórias recentes de gente que sente que esse mundo gira uma vez mais: hashtags iludem os esperançosos, fatos e números assustam os apocalípticos, enquanto nos primeiros minutos do ano novo crianças preenchem o palco iluminado do festival musical que lembra a todos: os bons tempos voltaram. No centro do tablado o homem chucro preenche os espaços de uma banda inteira, símbolo dessa época onde artistas auto suficientes provam que o agito pode ser feito sozinho, e que prova maior que os pulos e sorrisos das crianças de olhos fundos e corações puros. Filhos e filhas de vestidos multicoloridos, cabeças flutuando em pensamentos sem etiquetas, pés descalços deslizando sob a poeira cósmica encantadora de montanhas.

Me sinto como uma criança de Devendra! “Desde o umbigo até o túmulo” seremos crianças, apesar dos pesares e das contínuas mudanças de ares, seremos crianças aprendendo através da natureza dos sonhos a sermos aquilo que sempre fomos: crianças. Inventivos e intuitivos seres livres bailando danças ancestrais livres de julgamentos carentes de sentido. Viramos o ano mais obscuro do século ao som das canções inglesas mais cantadas da história desse decadente ocidente onde as regras parecem ser a régua dos homens com corações e mentes duras. Haja hinos espirituais, versos pop cravados no inconsciente coletivo recente, perpetuados por bandas sessentistas, haja canções praieiras ainda mais antigas, haja joãos, chicos, gils, caetanos, donovans, dylans, cohens, bowies, kevins, jorges, rubens, fitos, charlies, zés, almirs, céus, cátias e gals cantando eu te amo como só ela sabe fazer. O planeta das composições amorosas segue sua expansão em escala multidimensional e é nesse espectro que precisamos estar, certos sobre o incerto mundo externo, plenos sobre esse mundo interno feito do amor capaz de cicatrizar todo esse ódio mal resolvido. Ansiosos reflexos sem nexos, invisíveis intervenções, sensações, sacações amplificadas em grandiosos luares.

Hibernações em calorosos entardeceres, necessárias para a reintegração corporal após outro longo ano que passou tão ligeiro quanto esses raios cerebrais conectores de ideias. Raios que tentam costurar histórias desse passado esmagado por exclamações, rompimentos e as infinitas reticências de sempre.  

Vamos lá garoto, eu sei que você tem sonhos grandes e apesar de agora essa lógica provocada pelo caos das ideias repentinas transformadas em meras palavras ritmadas e que apesar de darem forma ao pensamento reduzem as sensações aos conceitos limitados pelas letras que em conjunto definem palavras e que dependem do repertório do receptor para ganharem algum valor real, um valor talvez maior quando a ausência de pontuações pode provocar inquietações na respiração desse mesmo receptor. E se a comunicação é o grande mal do século e é através da tecnologia que o mal opera e faz gente de bem eleger políticos de araque, me sinto cada vez mais ilhado nesse universo literário preso em alguma cápsula do tempo. Um tempo remoto onde pessoas ainda se interessavam por pensamentos originais, um tempo distante onde a tecnologia ainda era nossa amiga. Hoje me decepciono cada vez que recebo alguma mensagem compartilhada e que provavelmente fora produzida por máquinas responsáveis em separar o povo, criando lados imaginários, vilões ou mocinhos irreais, um espetáculo midiático tão banal quanto a última novela das oito.

Enquanto isso, os longos dias no hospital das nações seguem gerando reações adversas. É incrível perceber que enquanto o mundo lá fora sofre a aceleração degradante de um sistema em colapso iminente, enquanto as almas podres disputam o poder, enquanto a ganância dos doutores e advogados alcança níveis estratosféricos, enquanto a separação de classes cresce exponencialmente, enquanto as contas atrasadas se acumulam, enquanto as nações sobrevivem aos trancos e barrancos, enquanto a finitude do planeta ilude sonhadores que sonham com o dia onde o ódio e o mal não encontram mais lugar, os pastores pregam, os jogadores jogam, os cães ladram, os escultores esculpem, os cantores cantam e os escritores escrevem. Enquanto tudo isso rola ao mesmo tempo, os longos dias no hospital das nações me fazem perceber que o maior exemplo de vida só pode residir em você mamãe, a maior lutadora que conheci, dona dos brilhantes olhos negros mais sinceros que já vi. Profundos e divinos olhos negros guiadores de horizontes onde o amor jamais cessará.