Sonhos e Reflexões no País dos Falsos Heróis


 

Instantes inconstantes que precedem a mudança no clima na cidade dos pinheirais. Após quarenta dias de sol a chuva amiga das plantas e inimiga dos eventos sociais vem para limpar a poeira acumulada. Fugazes hibernações são capazes de produzir sonhos em toneladas. Viagens do inconsciente por entre vielas da memória sensitiva envolvendo personagens recorrentes: o chefe da vida, amigos atuais, laços maternos eternos e uma porção de outras doideras envolvendo viagens interdimensionais de proporções quânticas. 

A iminência do fim de mais um ciclo, talvez dois, um deles infinitamente mais importante, afinal, família é família e isso todo mundo já sabe. Mas há momentos que isso fica mais claro que o plástico filme que envolve o sanduíche natural de outrora. O astronauta foi pra lua há cinquenta anos e hoje ainda tentamos lutar por direitos iguais, contra os mesmos velhos tiranos que insistem em seguir no poder, enquanto a tecnologia que deveria nos ajudar, é capaz de produzir mais caos e tristezas. Tudo moldado por esse sistema capenga propagador de injustiças. E é nesse ápice tecnológico que surgem os hackers que tentam desmascarar os falsos heróis, ainda que seus discípulos fechem os olhos para os fatos que pipocam nos principais jornais mundiais. Até mesmo as notícias “livre de hackers” sobre o perdão ao agronegócio, a enxurrada de agrotóxicos aprovada pelo governo, a indicação do filho fritador de hambúrgueres para a embaixada do Tio Sam e o preconceito notório ao povo nordestino parecem não chegar nas timelines de seus eleitores, culpa desses algoritmos criadores de bolhas ilusórias. E o país segue dividido como uma pizza gigante: metade calabresa, metade mussarela. Uma pizza de borracha, tipo aquela usada na propaganda, afinal, sabemos que no fundo, estamos todos no mesmo barco. Esse sim real, afundando em ritmo frenético, enquanto os botes salva-vidas são retirados sem maiores explicações, assim como os direitos trabalhistas e essa tal reforma da previdência. 

É evidente que estamos num mato sem cachorros e cercado por cobras de todos os tamanhos. O que poderia nos salvar deste fim trágico e patético? Alguma catástrofe natural? Outro impeachment? Uma intervenção alienígena dos moldes daquela anunciada por Chico Xavier? Sonhar não custa nada e é isso que tenho feito nos últimos dias. Gostaria de ter acesso ao oráculo que possa responder todas essas questões, mas é bem provável que esse ser mitológico já tenha desistido da gente, afinal, gostamos de cometer os mesmos erros do passado, até porque nossa memória é curta e ainda temos o péssimo hábito de acreditarmos nos livros de história. 

É preciso uma boa dose de espiritualidade ou zen-nadismo no estilo dudeísta para passar os dias e conseguir dormir com a consciência tranquila. Uns resistem, outros simplesmente existem e outros insistem. Me considero parte desse terceiro grupo, dos insistentes. Apesar dos pesares, insisto naquilo que acredito. Um dia tudo ficará bem, ainda que esse final seja vivido em outro plano, mais verdadeiro e menos contaminado. Com sorte, minha família e alguns bons amigos também estarão lá. No mais, só posso torcer a favor, a favor da natureza, a favor do planeta e a favor do Kevin Johansen que escreveu uma canção sobre isso. 

 

Em tempo é bom lembrar que se arrepender é humano e não tem nada de errado nisso. Esse velho sentimento parece que ficou fora de moda e talvez seja por isso que as coisas sigam piorando. E logo após o arrependimento vem o perdão, assim como Cristo na cruz: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que estão fazendo!”.  

 

Texto e Narração: Igor Moura
Trilha: Chet Baker – Tenderly