Suspiros de Alegria em Plena Pandemia


A criança ajuda no coro da canção, sorrindo e balançando sua cabeça ao lado da família parcialmente mascarada. Os versos mutantes do baiano Raulzito fazem parte do inconsciente popular e ainda que grande parte do público que canta fervorosamente, quase como algum tipo de louvor hippie, não entenda o real significado da faixa setentista, ou talvez nunca tenha se dado o trabalho de analisar e filosofar não apenas esta, mas todas as canções que já passaram por seus ouvidos desatentos, ainda assim, o momento é histórico, emotivo e catalisador. Estou em um salão de um mercado público de uma cidade do sul e este é meu primeiro show “pós pandemia”, apesar da mesma seguir existindo e até matando pessoas, porém a luz no fim do túnel , ou a tão esperada vacina começou a pipocar nos folhetins cibernéticos, gerando uma sensação de esperança no ar. Um ar contaminado não somente com este famigerado vírus, já que nós humanos adoramos inventar coisas para nos auto destruir. Carros, caminhões, motos, tratores, fábricas e mais fábricas, aviões, aviões que despejam químicos, aviões que soltam bombas em povos oprimidos, povos que sofrem com doenças pulmonares, alergias e mais uma série de outras enfermidades que poderiam ser evitadas, caso a gente cuidasse um pouco mais deste ar invisível, capaz de propagar um vírus tão potente e dinâmico, e que até conseguiu acelerar a chegada da tal quarta revolução industrial, responsável por dizimar profissões inteiras, decepando direitos trabalhistas e gerando mais um punhado de questões éticas envolvendo avanços tecnológicos repentinos, possivelmente com a ajuda, também invisível, de raças extraterrestres, caso você acredite no Sr. Xavier. É claro que todas estas mudanças são propagandeadas como necessárias ou desejáveis, para um público digital controlado por algoritmos e uma meia dúzia de gente mal intencionada e detentora desse falso poder, dessa coisinha criada por nós mesmos e conhecida no meio acadêmico por Capital. Mas é preciso dar um giro neste Capital com C maiúsculo para retornar ao tema central deste texto anti cronológico e com mais pontas soltas que qualquer investigação policial capenga ou com interesses próprios escusos. Não se esqueça, caminhos obscuros demandam escudos.

É preciso confundir, embaralhar e bagunçar para me aproximar desse enorme caos externo e que se faz presente especialmente durante aquela rolagem na linha do tempo da rede social escolhida, ou ao caminhar pelo centro de qualquer cidade minimamente grande e surtada, onde os estímulos visuais e auditivos berram pelos quatro cantos, gerando uma espécie de torpor no ar e fazendo as pessoas se comportarem como figurantes de uma peça escrita pelo rei da terra dos cegos. Comprem, comam e se divirtam! Grita o roteirista e diretor, enquanto a plateia de banqueiros e empresários aplaude de pé. 

O fato é que ontem senti este cheiro de esperança no ar, um cheiro ainda meio amargo e ambíguo, mas ainda capaz de unir seres distintos em torno de uma canção conhecida o suficiente para que todos possam cantar e espantar seus medos agigantados pela maior pandemia de todas. Uma pandemia que também escancarou o enorme abismo social propiciado por um sistema baseado em papéis e em algo tão irreal quanto os slogans publicitários. Inventamos o tempo ou pelo menos algum jeito de mensurá-lo, e depois inventamos as moedas, as cédulas, os cartões de plástico, as ações e agora as malditas moedas virtuais. Tudo para que o tempo, este precioso tempo, escape de nossas mãos e sejamos controlados, e até doutrinados a crermos que essa historinha de trocarmos nossos trabalhos por algumas verdinhas seja algo justo e coerente. E se você nasceu preto, pobre ou com alguma deficiência física ou mental, bem, você não teve sorte e caso ainda queira um lugar ao sol, precisará se esforçar cem vezes mais. Talvez este sol seja feito de hologramas tridimensionais e programados por nerds comandados por faraós ocidentais bebedores de ouro e que salivam litros de ganância, enquanto suas consciências explodem em pesadelos recorrentes. 

Mas não posso despender tanto tempo com estas consciências corrompidas e distantes das essências destes seres gelados e com carências afetivas do tamanho de seus egos. Preciso me concentrar na minha própria consciência. Esta consciência em processo de expansão, principalmente após a última série de acontecimentos atípicos ou até cíclicos em determinados pontos. O reencontro da alma gêmea ou ao menos irmã, o desabrochar de um novo grande amor, a adaptação na nova casa, o contato com crianças, animais e plantas, o aprendizado ancestral materializado por rituais xamânicos, as celebrações da vida e do amor! Profundas compreensões possíveis graças a ajuda da vovó Aya. Talvez as micro doses dos fungos amigos também tenham contribuído para essas sacações que tenho experienciado diariamente: a constatação do meio da vida e da importância do caminho do meio enfatizada pela queda do meio dente, o sentimento de gratidão aos pais, ao irmão, às tias e aos primos, e a todas as pessoas que tenho conhecido nesses novos cantos. Gracias universo e gracias aos multiversos também, apesar de tê-los visto apenas uma vez, na primeira viagem com DMT. Está tudo aí e mesmo que boa parte de tudo seja invisível e intocável, precisamos agradecer a tudo e a todos, e se possível, o tempo todo. Tudo faz parte de tudo e o todo não está nem aí para a sua aparência ou suas orientações políticas. O maior beneficiário de qualquer caminho espiritual escolhido será você mesmo e por consequência, todos aqueles que fazem parte da sua história.

No final da noite e após a empolgação embrionada pela banda setentista e dona de um repertório quase exclusivamente brasileiro, ficamos ali, cobertos por um pano fino e cheio de caveiras, simbolizando todas essas mortes que costumo escrever sobre, enquanto a chuva não dava trégua e um grupo animado cantarolava velhas canções escritas pelos novos baianos com brilhos em seus olhos. Voltamos para a magical house e para a nossa surpresa havia uma pequena festa, a primeira não oficial e realizada após o início da pandemia. Ainda não vencemos a batalha, os cuidados e as novas medidas sanitárias merecem atenção, porém sinto que estamos finalmente em 2021. E sempre que possível, let the good times roll, ou dance enquanto tiver pernas para dançar ou um amor para abraçar. Com ou sem vacina, a vida não vai esperar.  

 

(IMA, Fev/2021)