Terça-feira

WagnerRengel

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Vida leve é voar baixinho
Não dá para sentir as brisas
Longe demais do chão
Leve, longe do ninho
Nem tão longe

A noite já havia silenciado as motos estúpidas. Passava das dez e meia e o silêncio de uma terça-feira era um excesso de ordem. Eu não queria ordem. Queria grito, maquiagem, música alta, álcool, drogas, perfumes, risos, corpos dançando, suando, namorando, se beijando, gente desconhecida, olhares encontrados. Mas, era terça. Um dia onde poucos, bem poucos se arriscam. A ordem determinava repouso para mais uma quarta produtiva, de trabalho, de metas e entregas. Essas palavras contemporâneas mescladas com outras estrangeiras e motivacionais inundam as corporações, as linhas de produção, os escritórios de ar gelado e poluído. Alguém manda limpar esse filtro do ar condicionado que eu não aguento mais minha renite? Não. Isso é falta de modos, minha mãe diria. O certo é emitir um protocolo, despachado em tantas vias quanto possíveis, solicitando orçamento de empresa terceira que fará a limpeza da porra do ar condicionado. E eu aqui ainda me perguntando quem estabeleceu essa sequência infernal na vida de cinco dias por semana, alguns seis, oito horas por dia, alguns até doze horas? Por que não se pode trabalhar quatro, seis ou duas horas; dois ou três dias por semana?
Eu não queria ordem naquela terça-feira. Queria balada, queria ficar excitada, bêbada, falar alto no ouvido de alguém, com um copo na mão, balançando meu corpo num ritmo desconhecido e tudo bem. Sou eclética com as músicas. Eu nem trabalho em escritório, nem trabalho oito horas por dia, nem trabalho cinco dias por semana. Reservo um tempo para escrever. Considero isso um trabalho, então está tudo certo para minha moral já despedaçada, sobrando cacos de algumas certezas que reservei para os dias de pouca fé. Que fé?, eu me pergunto. Na última vez que fui numa missa fiquei, discretamente, batendo fotos do padre, com todo respeito, bonitinho, mas era gay, com certeza. Não dava para mim. Não entendi nada do sermão. Era católica. O pecado me converteu.
A noite já tinha chegado. Todos dormiam. E eu queria pecar. Pecar gostoso com ele, ser meu cúmplice num desespero da sociedade puritana, derrubar tabus, cair de boca e gozar na vida.

 

Aceito flores como consolo.
– Rosas?
Sim. Vermelhas, mantenha os espinhos e que tenha amor. Agradeço.
Demorei para dormir. A noite estava quente.

 

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