Tirando Onda

SurfMusic, JuanaDobro

Quando alguém me pergunta o que eu mais gosto de ouvir (música), minha resposta é bem direta: surf music. Há décadas da minha vida que esse estilo é, para mim, soberano. Eu ouvi Dick Dale ainda bem nova, no inicio da minha adolescência quando entender de música exigia mais esforços. Era pura emoção.Desde então esse embalo virou meu refugio para muitos sentimentos e momentos.

A surf-music nasceu na Califórnia do começo dos anos 60, com o surfista e guitarrista Dick Dale, que conseguiu concatenar todas suas influências (blues, folk e música judaica) com a atmosfera praiana. Dale conseguiu formar toda uma geração de rock-instrumental, que, apesar do curto boom de meia-década (a primeira metade dos anos 60), legou à guitarra elétrica o mesmo status que reina até hoje, o de instrumento símbolo do rock!

Na mesma Califórnia, aparecem também os Beach Boys, banda de Brian Wilson que apesar de seus altos e baixos, sempre ocupou o posto de “A Mais Queridinha da América”, merecendo até mesmo a consideração de ser a única banda a realmente superar os Beatles.

Por outro lado, não se pode deixar de citar o pioneirismo de gente como os Ventures, a primeira grande banda de Seattle e na ativa até hoje, de Frank Zappa, que já gravou muita coisa do gênero, e do pessoal da “Twangsville”, a cena britânica do rock instrumental que apesar de não tocar a surf-music propriamente, é referência fundamental no gênero até os dias de hoje, principalmente os Shadows de Hank Marvin e os Dakotas de Mike Maxfield.

Capítulo à parte é a indiscutível influência de Link Wray, um bluesman caboclo, que por não ter metade dos pulmões para cantar, fez com que a guitarra exercesse essa função. Wray foi o responsável pela descoberta da
distorção, já que na busca por um som mais poderoso, descobriu que bastava furar os alto-falantes para que isso se concretizasse. Apesar de ser um músico da década de 50, Link Wray sempre esteve muito à frente de seu tempo, e por isso todos os segmentos do rock têm sua parcela de dívida para com ele.

Sabemos que o Rock’n’Roll, apesar de nascido nos E.U.A, fez como um fenômeno universal e assim se espalhou pelo mundo. A surf-music foi na carona e também ganhou o planeta, já que surgiram N bandas ao redor do mundo, principalmente na Ásia, nos países europeus e em toda a América Latina também, à priori no Brasil.

O que aconteceu por aqui foi meio-verdade, meio-lenda; pois quando a beatle mania passava a invadir o mundo, chegava ao Brasil também sob a forma da Jovem Guarda. Como no Brasil ninguém entendia patavina de inglês, surgia uma encruzilhada: ou fazer versões instrumentais ou versões em português. Os dois caminhos foram seguidos por dois grupos diferentes: um, pelos cantores que preferiam as versões, e o outro, pelos músicos em si!

Inclusive há uma lenda de que o pré-requisito para o músico que quisesse tocar com o “rei” Roberto Carlos nessa época era gostar de Ventures e Shadows, o que pode ser claramente ouvido nos discos “Splish Splash” a “R.C. Em Ritmo de Aventura”, passando por “É Proibido Fumar”, o seu ápice. O problema é que a grande maioria debandas de surf-music serviu mais como acompanhamento para os grandes cantores de então. Os cantores permaneceram na memória do povo, mas o pessoal que tocava com eles, não.

Grupos como The Pops,  Jet Blacks, Jordans, Luizinho&SeusDinamites, The Bells, The Clevers, The Flyers, The Lions, The Sparx, The Angels/Youngsters etc, são lembrados apenas por músicos e pesquisadores de bons sons.

Quanto a bandas como The Fevers, Renato &Seus Blue Caps e os Incríveis, o sucesso permaneceu e permanece até hoje, graças aos seus  êxitos vocais. Hoje, essas três bandas se juntaram para formar um “super-combo” chamado The Originals, apenas para shows burocráticos e saudosistas, sem nada de novo.

Em 1965, a surf-music americana entrava em franca decadência, pois seu espaço passava a ser ocupado pelo pessoal da “invasão britânica” (Beatles, Stones, etc) . Logo, o estilo passou a hibernar por quase três décadas, até
o momento em que o diretor Quentin Tarantino usou muitos “nuggets” do gênero para compilar a trilha sonora de seu filme Pulp Fiction. Resultado: surgiram inúmeras bandas ao redor do mundo, os grandes medalhões passaram a fazer mais turnês, e no Brasil, inclusive, muitos tesouros passaram a ser desenterrados de sebos.

Bem, na verdade o que houve é que a surf-music se manteve de certa forma ativa, mas não no gosto popular, pois era tocada pelo pessoal das antigas e por muitos músicos do punk-rock e psychobilly. O estilo veio à tona mesmo quando sentiu que havia todas as condições possíveis para sua proliferação.

Agora, se o lance é sobre surf-music Brazuca, vale lembrar que aqui temos uma das cenas mais prolíficas do planeta. A cidade de Belo Horizonte-MG, anualmente promove o Campeonato Mineiro de Surf, o maior encontro de bandas do estilo no Brasil. Eu, na minha mais humilde opinião, recomendo fortemente que escutem, Mullet Monster Máfia, uma banda brasileira que taca fogo quando o assunto é surf music endiabrada. Atualmente, a minha preferida das terras tupiniquins. Bóra mergulhar nessa onda e não morrer na praia. A surf music é uma junção de tudo que há de melhor na música.

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DISCOTECA BÁSICA

Cowabonga Box-Set: o mais completo resumo da história da surf-music, em três décadas de existência.

Better Shred Than Dead: The Dick Dale Anthology – a melhor compilação da obra de Dick Dale!

Pulp Fiction (Collector’s Edition) [ORIGINAL RECORDING REMASTERED] – É a melhor edição dessa trilha sonora, pois contém muito do que não saiu na versão de ’94, incluindo músicas de Link Wray e The Markets.

Beach Boys – SIGHTS & SOUNDS OF SUMMER – Uma ótima ideia sobre o que são e o que representam os Beach Boys

Brian Wilson Presents Pet Sounds Live (2002) – Antologica versão ao vivo do álbum Pet Sounds 35 anos mais tarde, acompanhado da banda The Wondermints

Brian Wilson Presents Smile (2004) – Com o mesmo line-up de Pet Sounds, eis que está finalizado o álbum que quase ceifou a vida de Brian Wilson em ’67.

The Shadows – 50 Golden Greats – Coletânea completa sobre o smais de quarenta anos da banda.

->Twang! : tributo aos shadows prestado por medalhões do rock como Ritchie Blackmore, Brian May, Tony Iommi, Neil Young, Mark Knopfler, Peter Frampton, etc.

The Ventures: Ultimate Collection-40th – Talvez a mais digna das coletâneas feitas sobre os Ventures

Link Wray: Rumble! The Best of…
Sem comentários! Se tem Rumble, Ace of Spades, Jack The Ripper, Run Chicken Run, etc; só ouvindo mesmo!

Frank Zappa – Coocamonga
Primeiros trabalhos de Frank Zappa no Estudio cucamonga, em San Francisco-CA. Indicado para todos aqueles que (acham que) conhecem e para os que não conhecem.

VARIOUS INSTRUMENTAL GROUPS (3 volumes)
Diga-se de passagem que esta série funciona como uma versão brasileira para as caixas Nuggets e Cowabonga. Pode ser adquirida pelo site da Instrumental Newsletter.

The Jet Blacks – Vitrola Digital
Coletânea com o essencial dos Jet Blacks em sua formação clássica.

OsIncríveis – O Milionário
Na verdade, este é o primeiro disco dos antigos Clevers com o nome de Incríveis.

The Jordans – Geração Surf
Uma boa reunião da formação original dos Jordans nos anos 90.

Ricardo Melchior – Surfin’ Guitar

Mullet Monster Máfia – Surf’n’goat – Ultimo álbum lançado da banda.Com estilo agressivo e pesado, o MMMafia acabou por gerar sua própria identidade, batizada de Power Surf Music.

 

 

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