Um ensaio visual-antropológico sobre guerreiros(as) no ỸBỸ Festival


Numa livre tradução a partir do Cambridge Dictionary, “fake” é algo não real, mas feito para assim parecer. Nesse sentido,a palavra refere-se ao que é ilusoriamente real, aquilo que falsifica a realidade. A semântica oposta não é o sentido de “efetividade” ou “eficácia”. Em sua forma verbal– para além do substantivo que se remete a esse simulacro –,“fake” é pretender que alguém perceba qualquer sentimento ou emoção que se finge. É precisamente tais intencionalidades direcionadas à percepção da objetividade que merecem ser sublinhadas como um mínimo semântico comum entre os variados significados que o termo carrega. Coisas “fake” agem, portanto. Causam efeito.

Em razão de sua urgência no Brasil atual, o nosso problema não poderia ser outro em relação ao tema:a desinformação é objetivo político da falsificação de notícias. E, é inegável, elas são efetivas.Então, pergunto: trata-se da política da ignorância que o antropólogo Gustavo Lins Ribeiro, durante o IV Encontro de Antropologia México-Brasil, ocorrido no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp em 2017, diferenciou da ignorância política?Ambas são ignorâncias, reciprocamente reverberantes, mas distintas.

Embora um fenômeno taxado como novo, suas feições rugosas denunciam a velharia que é. Darcy Ribeiro, por exemplo,já conceituara enquanto um projeto a crise educacional no país. Isto é, persiste a ignorância enquanto uma política. Se entre tudo isso a que me refiro parece existir apenas distância, fica totalmente compreensível suas proximidades quando recordo que, dentre as várias notícias (falsas) que marcaram o cenário político recente, muitas estavam relacionadas à educação escolar. Por ora, basta dois exemplos: a distribuição de mamadeiras de piroca e kits gay para instituições de ensino. Ou seja, o controle de informações e conhecimentos tem propósito para as pessoas, seja porque é pensado para orientar opiniões e posições políticas, seja porque serve à legitimação de certas direções políticas almejadas para a sociedade, sendo, portanto, um projeto idoso. A questão sobre quais conteúdos e para quem devem ser disponibilizado não é tão nova. As tecnologias robóticas e comunicacionais é que facilitaram a capilaridade da desconstrução da informação e da formação do sujeito. No entanto, como fazem? Como os efeitos são produzidos?

Nas fake news,dependem da utilização de uma estética jornalística (feitura de manchetes, por exemplo), segundo Francisco Brito Cruz, diretor doInternet Lab, além de uma forma emocional e visual apresentada (apelo sentimental, condensação e exagero informacional etc.), de acordo com os pesquisadores Débora Freire e David Fernandes. Há bastante para crer que são elementos coparticipantes daquilo que o antropólogo Piero Leirner, baseado no norte-americano AndreKorybko, classifica como “guerra híbrida” e “semiótica”. A ideia, diz o autor, é “desnortear o inimigo, deixando praticamente impossível para ele uma avaliação real sobre o tamanho, o posicionamento, a coesão e o estado de suas forças”. Posso dizer, então, que atuam sobre a “força” do outro. O “contra-ataque híbrido” possível, continua o antropólogo, são as avalanches de vídeos e imagens que circulam pelas redes. Alguma força precisa ser emitida na contramão.

Os indígenas – povos que estão reunidos com negros, pobres, gays (grupos de pauta identitária) no centro da mira da extrema-direita – já entenderam o que precisam fazer nesse mundo onde, há mais ou menos dois meses, se propagou, por exemplo,a notícia de venda de terras indígenas em  Rondônia. Diante do fato,muitos deles estão apropriando-se das tecnologias, pois esforçavam-se para contra-atacar aqueles que querem lhe tirar reconhecimento e representatividade e, no fim de tudo, as condições de vida – que é mais do que simplesmente sobreviver; é viver; é existir. Kaê Guajajara, durante o WME Awards deste ano, afirmou que é “muito importante lembrar as pessoas que a gente existe”.

Na expressão da antropóloga Artionka Capiberibe,é um “interminável Brasil Colônia”, no qual as ideias acerca dos indígenas continuam sendo disputadas, afinal disso depende a liberação da posse das terras que se deseja incluir no fluxo mercantil. Da parte dos indígenas,lembra ela, a ação das palavras, dos corpos, dos objetos, dos grafismos indígenas tem sido fundamental para fazer oposição, ou controlar a imagem que deles são produzidas. Talvez um exemplo emblemático dos últimos meses seja a carta dos povos do Alto Xingu que correu lista de contatos para confrontar a indígena que Jair Bolsonaro levou à Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Enfim, tudo que esteja disponível (penso em celulares, internet, máquinas fotográficas, microfones, amplificadores, mesas de edição etc.) e que sirva, seguindo as palavras de Capiberibe, “para se confrontar com os juízos e imagens” a respeito dos indígenas não é descartável. No caso da música feita pelos jovens indígenas que participaram do ỸBỸ Festival da Música Indígena, ocorrido nos três dias do último fim de semana na capital paulista, a categoria utilizada para o que fazem é “futurismo”, e traduz a junção entre o tradicional e o contemporâneo.

Faixa “SP Terra Indígena”no ỸBỸ Festival. A faixa foi colocada um dia após uma mensagem via celular chegar aos organizadores do evento para solicitar a diminuição do volume do som.

Canecas sendo comercializadas no evento

Nessa guerra, obviamente, não há apenas fake news e mensagens de texto. Deixo bem claro que Paulo Guajajara foi assassinado em emboscada por madeireiros; Alessandra Munduruku, após denunciar, pouquíssimos dias atrás, a extração de minério e madeira nas terras em que vive, teve sua casa invadida; os Yanomami têm sido envenenados com mercúrio do garimpo e os Guarani-Kaiowá com agrotóxicos arremessados das aeronaves do agronegócio. Mas, enquanto escrevo este texto, um vídeo enviado por um amigo Xucuru-Kariri de Palmeira dos Índios atualiza-me sobre disparados de fazendeiros contra os Kariri-Xocó que ocuparam,no final desse novembro último, uma fazenda em Porto Real do Colégio – AL. Dito de outro modo, independente de uma provável fragmentação do fenômeno que implica sua adjetivação (híbrida, semiótica, literal, simbólica, ontológica, ou qualquer outra),é importante saber que tudo isso é guerra, e, devido a essa multidimensionalidade que lhe caracteriza,talvez a neutralização do inimigo exige exatamente essa combinação de antídotos.

OỸBỸ Festival da Música Indígena foi um espaço interessante para pensar a questão. Nele, um conjunto de artistas que, incontáveis vezes, auto designaram-se guerreiros(as) foram a um dos palcos da Unibes Cultural. Foi o caso das Suraras dos Tapajós, grupo de mulheres indígenas do Pará que, em resposta às prisões dos brigadistas em Alter do Chão, cantaram e chamaram homens e mulheres para dançar com elas. O chamamento, no entanto, seguiu os modos mais tradicionais de conceber a região do Tapajós. Convidavam as pessoas dos diferentes gêneros dizendo que eram botos e sereias encantadas do rio. Com os celulares e os chocalhos que elas animaram levantar, o público colaborou para que sons e imagens recheados de sentidos indígenas caíssem numa rede como força contrária, e necessária, aos robôs pró-Bolsonaro que são mantidos em funcionamento.

Celulares e maracás para cima enquanto as Suraras do Tapajós cantavam

O evento, de riqueza (artística, cultural, econômica, gastronômica, social) muito mais ampla do que pretende ser esse ensaio sobre política, foi uma iniciativa da Rádio Yandê, que se define uma “mídia de difusão da ótica tradicional indígena”, mas que, para tanto, “agrega” a “velocidade e o alcance da tecnologia e internet”. Isto é, os indígenas estão colocando potência nos seus  antigos modos (guerreiros)de ser. A obra“Arqueiro Digital”, uma releitura deDenilson Baniwa da gravura “Caboclo” (1834), de Jean Baptiste Debret, sintetiza muito do que é essa luta indígena atual.

Os indígenas estão atualizando suas armas de guerra. Logo, não estão fazendo nada tão diferente a ponto de estarem deixando de ser o que sempre foram. A pergunta que me fazia enquanto acompanhei muitos dos shows que ocorreram no sábado e no domingo do festival era “como, hoje, estão sendo os(as) guerreiros(as) que declaram ser?”. Além disso, questionava-me: “como eu poderia fazer as pessoas verem tal resistência guerreira?”.

Minha saída foi este ensaio fotográfico que apresento a seguir. Optei, embora eu não tenha formação técnica, pelas imagens que exibo aqui. Foi um modo que encontrei de testar minha habilidade em relatar imageticamente um pouco da luta (guerra) indígena que observo. Especificamente, foi uma maneira pela qual imaginei conseguir trazer um pouco das relações(esse é o termo fundamental) que permitem, por exemplo, que a “força” e a “emoção” que existem na “maraca”, no“aió”, no “tambor” – conforme afirmou Wakay Pontes em show de domingo – cheguem às pessoas e, possivelmente, possa contra-atacar a emotividade com a qual as fake news e outras tantas news intentam, no dizer dos pesquisadores Freire e Fernandes, “tombar” a razão. Assim sendo, o remédio contra a perturbação sentimental e psicológica nos tempos na “era da pós-verdade” não seria um retorno aos fundamentos racionais (se é que já existiram), mas uma inflexão aos afetos e pensamentos dos mundos ameríndios?

Wakay Pontes e seus objetos

As fotografias que seguem, portanto, são resultados desse pequeno e primeiro experimento visual-antropológico. São a maneira pela qual tentei traduzir essas relações indígenas contemporâneas com coisas e pessoas para fazer interagir muito mais do que palavras, argumentos ou discursos com as desinformações, os sentidos, a falsificação que produzem os interessados na destruição dos mundos indígenas. Tento demonstrar um pouco do que permite, segundo Capiberibe, a “ampliação do conhecimento sobre outros modos e possibilidades de Ser no mundo”, o que é feito, continua a autora, por meio do estabelecimento de alianças que não sejam riscos à diferença. Enfim, para lutar é preciso se aliar, como está bem expresso na letra cantada pelos rappers do OZ Guarani:

“Doa a quem doer,

Jaraguá é Guarani.

Favela e aldeia,

união que não tem fim.

Somos a afronta,

chegamos pra lutar”.

 

Grupo MãnãRunuKeneya​

Wescritor, cantor de “Grito Ancestral”, em cuja letra diz “brancos incompetentes, nunca vão entender que foi invasão e não por permissão”

Livro “Sopro da Vida – PutakaryyKakykary”, de Kamuu Dan Wapichana, sendo divulgado

KaêGuajajara, que, em “Mãos Vermelhas”, canta que “chamam de pardo pra embranquecer, enfraquecer e desestruturar você”

Wera MC canta que “agro não é tech nem pop” e que “ele mata”

No cenário de “Ruynas”, de JuãoNyn e Androyde Sem Par, penas e seringas parecem metaforizar sangue e cocares, do mesmo modo que fizeram no palco do festival

We’e’enaTikunaclama com a Amazônia

Tara Williamson, que por suas músicas aproximou as pessoas das planícies canadenses, onde os morangos, nascidos após o inverno, significam, na língua de seu povo, coração.

Jovem indígena filmando no ỸBỸ Festival

Suraras do Tapajós cantando

A imagem das Suraras, que, explicam, significa guerreiras

Suraras do Tapajós

Umadas Suraras do Tapajós dançando com o público e sendo filmada

As lentes do fotógrafo registram reações que as Surara dos Tapajós produziam com sua música e dança

Pela tela do celular, Gean Ramos Pankararu, cujos versos denunciam o desconhecimento das razões históricas que fizeram mais crespo seu cabelo

Gean Ramos Pankararu e Marlui Miranda

Gean Ramos Pankararu e Maria Gadu

Jovem fotografa indígenas Fulni-ô cantando e vendendo na feira de etno jóias

EdivanFulni-ô, cantor de “Sapiência de um jovem índio”, pela qual afirma que “não queremos ver fome, sede e miséria, o problema são as pessoas que enxerga em nós um cifrão, o problema é a bancada ruralista de ladrão”