“Versão brasileira: Herbert Richers”. A indelével dublagem brasileira


Com o streaming, estúdios de dublagem se multiplicam país afora. Mas a história do empréstimo de vozes a produções estrangeiras vem de mais de oito décadas

“Ei, Fred. Vamos jogar boliche?”. Todo mundo consegue reconhecer a voz por detrás desta frase. Seis em cada dez brasileiros preferem assistir a filmes dublados no cinema. Não é diferente na Europa e nos Estados Unidos, com percentual até maior. Os fatores que levam a essa preferência vão desde a preguiça de ler legendas até o entendimento da arte audiovisual como sendo diferente do teatro. O preconceito (ou conceito formado) com a dublagem se dá majoritariamente entre cinéfilos ou amantes da arte dramática, que preferem a interpretação natural dos atores, logicamente.

O entendimento diferente da linguagem cinematográfica em relação à dramaturgia como um todo, ou de que o cinema carrega em si uma “dramaturgia diferente”, tem como exemplo máximo um dos maiores nomes do cinema de todos os tempos.  Federico Fellini, ao trabalhar com atores e atrizes das mais diversas nacionalidades, reza que já pediu à sueca Anita Ekberg que “contasse até dez, apenas, depois colocamos a voz no estúdio de som”. Fica claro o entendimento do cinema como “outro tipo de arte”, na qual a interpretação nos moldes da dramaturgia tradicional não se relacionava necessariamente com a ação dramática muitas vezes proposta em uma determinada película. Fellini detestava roteiros. Mas isso é outra história.

A dublagem no Brasil surgiu em 1938, com a exibição do filme Branca de Neve e os Sete Anões, até hoje a mais famosa e aclamada animação da Disney. Os cantores Carlos Galhardo e Dalva de Oliveiras foram incumbidos da missão de dar voz a todos os personagens da trama hollywoodiana.

A partir dos anos 1960, uma lei federal (o presidente era Jânio Quadros) mandou que todas as produções estrangeiras exibidas na televisão no país fossem dubladas. Os aparelhos eram muito pequenos e dificultavam a leitura de legendas. A tevê contava pouquíssimo tempo — menos de dez anos. Fora inaugurada em 1950 por Assis Chateaubriand em São Paulo e ainda dava seus primeiros passos. O rádio ainda predominava, inclusive na “dramaturgia eletrônica”. Novelas de rádio como O Direito de Nascer paravam o país de norte a sul. E foi pelas mãos dos profissionais de rádio — de técnicos a atores, passando por executivos e jornalistas — que a televisão brasileira foi construída.

Atores nunca foram muito bem remunerados, historicamente. Nos primórdios da teledramaturgia muito menos. Então era natural um coadjuvante de telenovela fazer “bicos” como dublador. E os enlatados americanos caíram industrialmente no país justamente neste período. Muitos creditam o excelente prestígio da dublagem brasileira a este fator. Tais produções contavam com as vozes nacionais de grandes atores e atrizes. Orlando Drummond, um dos mais efetivos de todos os tempos, emprestou sua voz ao personagem Scooby Doo por mais de 35 anos. Também fez as vozes de Popeye e o simpático ET Alf. Os irmãos Older e Wolney Cazarré (Don Pixote e a Turma do Manda Chuva), a atriz Laura Cardoso (a voz da Betty de Os Flintstones); e o mais reconhecido de todos: Rogério Márcico (a voz de Barney Ruble, amigo de Fred Flintstone, e também o Bobbi Pai e Bobbi Filho). Todos ficaram eternizados na memória de quem teve infância nos anos 1960, 70 e 80.

O primeiro estúdio de dublagem brasileiro foi fundado pelo cinegrafista e fotógrafo Herbert Richers. Nascido em Araraquara (1923), Richers se instalou no Rio de Janeiro na década de 1940, para estudar engenharia, mas nunca trabalhou com outra coisa que não fosse o cinema.  Após fundar uma empresa de distribuição de filmes, estabeleceu-se como o primeiro estúdio de dublagem 100% nacional, iniciando atividades na década de 1950, na mesma capital carioca.  Chegou a ser o principal estúdio da América Latina. A empresa cerrou as portas após a morte de seu fundador, em 2009. Todas as produções, após os créditos contavam com a locução “Versão brasileira: Herbert Richers”. Outros estúdios que marcaram época foram a Odil Fono Brasil – São Paulo, VTI Rio, Álamo e a Cinecastro.

Hoje as vozes são menos reconhecíveis. Mas os estúdios de dublagem funcionam a todo vapor. Com o advento da Netflix, a demanda pela dublagem aumentou muito. Segundo dados da empresa de streaming, 80% dos filmes e séries exibidos no Brasil são acionados com o modo dublado.

Prefiram os mais cinéfilos e amantes da sétima arte o som original ou não, é fato que no caso de desenhos animados eles são invariavelmente dublados, mesmo em seu idioma original, por óbvio. E é muito certo também que ninguém vai querer ouvir uma voz do Barney, ou de Homer Simpson, bem como do Zé Colmeia, que não seja “aquela”.

Imagens: reprodução

 

Ouça. Leia. Assista:

A Dublagem no Brasil, Leandro Pereira Lessa (monografia, pdf)

Eu Conheço Essa Voz, Caminhos da reportagem, documentário