Vigilante Rodoviário. O primeiro herói 100% nacional


Empreitada de Ary Fernandes foi divisor de águas na produção audiovisual brasileira. Seriado marcou a infância de toda uma geração

Em 1961 o Brasil gozava de grande prestígio internacional. Em apenas um pulo, o país deixou de ser o fornecedor de matéria prima, a condição mais básica de uma sociedade, ascendendo à mais elevada das condições: exportador de cultura.

Na vanguarda em várias frentes, o país dava ao mundo o cinema novo, a bossa nova, o teatro de arena, a poesia concreta, o neoconcretismo nas artes plásticas, a arquitetura de Niemeyer. Nos esportes, o Brasil era campeão mundial de futebol e basquete, Maria Ester Bueno era a maior tenista em atividade, o atletismo conseguia medalhas nos jogos olímpicos. A indústria de automóveis se firmara com o governo de Juscelino Kubitschek. Estradas eram construídas de norte a sul. A televisão completava uma década em atividade. O rádio era estabelecido. Jornais já mantinham seus impérios há mais meio século de grande influência na vida da nação.

Faltava ainda para a televisão dar um passo mais largo. E aí entra em cena o jovem cineasta Ary Fernandes. Como quase todo brasileiro daquele tempo, Fernandes era admirador do corpo da Polícia Rodoviária Federal, que na esteira da construção de diversas autoestradas país afora, teve aumento considerável em seu regimento, desde a década anterior. Alguns seriados enlatados dos Estados Unidos já passavam na tevê brasileira. Papai Sabe Tudo, Mamãe Calhambeque, Super Homem, Capitão Marvel, entre os mais populares. Todos sem exceção “vendiam” o american way of life, que incluía o consumo de produtos industrializados, alimentação e o hábito de assistir televisão, entre outros. Ary Fernandes se ressentia de um herói 100% brasileiro. A junção da Polícia Rodoviária, das grandes rodovias e tais anseios acabou dando origem à criação do Vigilante Rodoviário.

Roteirizada pelo próprio Fernandes, a série não tardou a tomar corpo. O diretor gozava de bom trânsito no ambiente publicitário — onde seria talvez o maior realizador da época, de incontáveis peças para tevê — e assinou um contrato com a Nestlé, que bancou a produção. O ator Carlos Miranda foi o escolhido para viver o inspetor Carlos. O personagem, junto a seu cão Lobo —  um pastor alemão altamente treinado e muito esperto — combatia o crime baseado na rodovia Anhanguera, em torno do km 38, onde quase todas as externas eram filmadas. A escolha do local, a meio caminho da capital São Paulo para Ribeirão Preto, se deu pela ausência de chuvas na região, que garantia boa luz para captação em película. O seriado por sinal foi a primeira produção em 35mm da televisão nacional. O Vigilante Rodoviário foi de fato coisa de cinema.

Com produção do já experiente Alfredo Palácios, foram ao ar 38 episódios de 22 minutos cada. Para interpretar o personagem-título, Carlos Miranda teve de fazer um estágio na Escola de Policiamento Rodoviário, em Jundiaí, que incluiu aulas de artes marciais e muita educação física, além de manuseio de armas. O curioso é que ao final da série Miranda acabou por se tornar um policial rodoviário na vida real. Recebeu o convite do comandante geral da Força Pública de São Paulo. Acabou tendo seu nome incluído no Guinness Book, por ser “o único ator que se transformou em seu próprio personagem”. Carlos Miranda aposentou-se, passando para a reserva da PRF na condição de tenente-coronel em 1998.

A série foi editada e improvisada em dois longa-metragens para exibição nos cinemas, à época. Isso porque 70% da população brasileira não era portadora ainda de aparelhos televisores. Ao final, foram exibidos quatro longas. A produção era de baixo orçamento.

Diversos atores iniciantes que iriam a fazer história no teatro, cinema e televisão trabalharam no Vigilante Rodoviário. Stênio Garcia, Ary Fontoura, Fúlvio Stefanini, Juca Chaves e Rosamaria Murtinho integraram o elenco. Lobo, o cão do Vigilante, na vida real se chamava King e já tinha certa fama no audiovisual. Havia estrelado o comercial dos móveis de aço Fiel. Seu dono era um policial chamado Luiz Afonso. King morreu em 1965. Ary Fernandes escolheu o nome Lobo em alusão ao lobo-guará, animal das matas do sul-sudeste do país. O sucesso da série foi além da televisão. Uma revista em quadrinhos foi criada, recontando as aventuras do patrulheiro Carlos, publicada pela editora Outubro, de Jayme Cortez e Miguel Penteado. A música-tema do Vigilante foi composta pelo próprio Ary Fernandes.

O Simca Chambord 1959 nas cores amarelo e preto não pertencia à corporação da PRF. Foi criado especialmente para a série, bem como a motocicleta Harley-Davidson 1951 utilizada pelo Vigilante. Carlos Miranda reconstituiu o carro peça por peça logo que se aposentou, em 1998, e o exibia com certa frequência em feiras de carros antigos. A moto está exposta no Museu Eduardo André Matarazzo, em Bebedouro, interior de São Paulo.

O Vigilante Rodoviário foi ao ar em dezembro de 1961, em pré-estreia na TV Tupi. Depois, oficialmente em janeiro de 1962 entrou no ar com frequência. Foi exibido até 1963. Em 1967 e depois na década e 1970 foi reexibido por diversas emissoras. Hoje, é possível assistir ao seriado pela TV Brasil, rede pública do governo federal. Está disponível também no YouTube. Três episódios apenas ficaram comprometidos e não puderam ser restaurados.

Ary Fernandes foi um bem-sucedido diretor de 231 comerciais e produziu, dirigiu e atuou em mais de 130 filmes. Faleceu em 2010, aos 79 anos. Carlos Miranda ainda passeia com seu Simca Chambord 1959 por aí.

Imagens: reprodução

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Vigilante Rodoviário – YouTube