Você é um propulsor da curiosidade?

Criatividade

Era 24 de dezembro.

A família inteira estava reunida na casa do Vô Tomás e da Vó Arlete. Todos estavam animados, organizando tudo para a ceia e a árvore já estava lá, linda, decorada, repleta de presentes no seu entorno.

Cada um na sua correria, todos foram saindo de casa para resolver algo ainda pendente. Um a um. Só a tia Eliane ficou e me deixaram ficar com ela. “Prometo que me comporto, pai, mãe! Quero ficar brincando!”

A tia leu meu livro preferido, mas pediu licença e aproveitou para tirar um cochilo. Enquanto isso, eu pedi licença (silenciosamente) e aproveitei para… abrir TODOS os presentes da árvore. Sim, T-O-D-O-S. Um a um. Só o ladinho, com muito cuidado, o suficiente para saber o que tinha dentro de cada pacote.

Ah, que sensação maravilhosa! “Eba! Vou ganhar uma Barbie! A Carol vai ganhar um CD… Mas, para quem será esse perfume (ou relógio, já não me lembro bem)?” Não aguentei mais essa curiosidade e fui acordar a tia Eliane para perguntar.

Assim fui descoberta.

Não me lembro bem o que aconteceu depois, quando todos voltaram para casa e tive que confessar o crime na frente da família inteira. Devo ter sido repreendida, talvez até tenham brigado comigo, mas acho que no fundo, no fundo todos riram.

Se estivesse no lugar deles, eu teria rido. Abertamente. Para ensinar que curiosidade faz bem! Pelo menos assim espero.

E você, o que faria? E como está educando os pequenos a sua volta em relação à curiosidade?

Quando eu digo “educando os pequenos a sua volta”, não pense que estou falando apenas com mães, pais e professores, ou ainda com avós, padrinhos e madrinhas, no máximo. Estou me referindo a todos nós, seres humanos habitantes do Planeta Terra. Pois, se você está vivo aqui e agora, de alguma forma você educa crianças. Pelo simples fato de existir e viver a sua vida, você está dando exemplos, positivos ou negativos, inspirando ou repreendendo.

Quem nunca parou no semáforo ao lado de um carro com uma criança e ficou fazendo careta para brincar com ela? Ou viu uma criança fazendo mil perguntas de “por quê, por quê, por quê” e olhou com cara feia para ver se ela “sossega o facho”?

Vou confessar para você: já fiz as duas coisas. E várias outras. Já fui parceira dos meus sobrinhos de exploração e bagunça, mas também já me peguei dizendo não para eles sem o menor motivo (talvez só por pura preguiça do que quer que viesse depois do sim).

A questão é que toda vez que olhamos com cara feia ou dizemos não para a curiosidade dos pequenos, estamos reforçando algo que a minha grande inspiração brasileira de criatividade, o Murilo Gun, chama de “bloqueios de criatividade”.

Quando fala em bloqueios, o Murilo não se refere a olhar para uma folha em branco e travar, mas sim a algo muito mais profundo que isso. Ele se refere a tudo que vamos aprendendo e absorvendo pela vida – na escola, no trabalho, na família e na sociedade – que nos ensina a ser “normais” (leia-se “seguidores de normas” e, claro, “não-curiosos”).

Eu sei que muitas vezes achamos que estamos dizendo esses nãos pelo bem dos nossos pequenos, por amor, para protegê-los. A grande questão é que esse amor protetor acaba em algum momento gerando frustração, os impedindo de mudar e seguir em frente, enquanto um amor propulsor geraria motivação, ação e mudança (evolução).

A Rafa Brites, ex-repórter da Globo e atual Influenciadora de Jornadas (ocupação que ela mesma inventou!), fala muito sobre isso e sobre a importância de buscarmos a nossa rede propulsora. Esses tempos ela soltou uma pergunta que trago a você – com adaptações minhas: lá na frente, quando as crianças de hoje estiverem velhinhas, você quer ser lembrado como alguém que foi propulsor da curiosidade delas ou como alguém que gerou frustrações e estagnação?

Um exemplo desse amor protetor pode ser visto na animação Os Croods (2013). A família Croods é a última a sobreviver da sua espécie e eles só sobreviveram porque “obedeceram às regras pintadas na caverna: tudo que é novo é ruim. Curiosidade é ruim. Sair da caverna a noite é ruim. Ou seja, tudo que é divertido é ruim.” E o pai, visando proteger a família, seguiu as regras tão a risca que eles só saiam da caverna quando era extremamente necessário: apenas para buscar comida.

Quando assistir ao desenho, vai parecer um exagero a atitude do pai e tudo o que ele faz para que a família nunca experimente o novo. Mas, na prática, todos nós agimos assim em algum momento, em maior ou menor grau.

Não me entenda mal, também não quero que você comece a dizer sim para tudo e rir para tudo, sem discernimento. Mas, vamos lá, que mal faz abrir os presentes de Natal algumas horas antes da troca oficial? Qual o grande problema por trás de se sujar um pouquinho (ou um montão) brincando com tinta ou com terra?

Escrevo esse texto na esperança de que possamos, eu e você, ser exemplos e inspiração de curiosidade e criatividade para os pequenos a nossa volta. Que não sejamos mais uma fonte de bloqueios criativos, nem protetores que amam, mas geram frustração, pois estes já existem aos montes. Escrevo para que sejamos propulsores da curiosidade, que amam, encorajam e libertam.