Will Eisner e o espírito da coisa


Desde The Spirit, a estética das HQs nunca mais foi a mesma. Herói surgiu por encomenda, e “do nada”

Denny Colt é um ex-policial dado como morto em Central City — uma daquelas cidades inventadas dos quadrinhos, mas que todos sabemos ser Nova York — cujo parceiro de lutas contra o crime é o comissário Nolan. Colt se esconde e mora no próprio túmulo onde estaria sepultado. Vaga mascarado pela noite combatendo o crime e observando o comportamento dos viventes de sua cidade sombria. Qualquer semelhança com Batman ou Dick Tracy não é mera coincidência.

Quando em 1939 Will Eisner rompe sua sociedade com Jerry Iger (Eisner-Iger Studios), terminava uma parceria que revolucionara a indústria dos quadrinhos. Na verdade, uma revolução que inaugurou essa indústria. A Eisner-Iger produziu em série para as mais diversas editoras e foi responsável direta pela chamada “era de ouro dos comics” (1938-1956). Iger preocupava-se mais com a parte comercial enquanto Eisner cuidava da criação. Seu modo de trabalho foi o que revolucionou o modus operandi na produção de histórias sequenciadas em narrativa gráfica. Sentava em uma mesa dentro de uma sala grande, feito as que constituíam as redações de grandes jornais. Em mesas separadas, diversos desenhistas criavam sob a supervisão do chefe. Eisner não deixava passar nada, aprovava cada página criada, enquanto permanecia em sua mesa, rascunhando páginas sequentes e novos personagens. Dali encaminhava a ideia a um redator, que escrevia as legendas e o diálogo, e daí a coisa seguia para o restante da equipe, o que formava a produção industrial em série que passou a ditar a regra o mercado gráfico e publicitário de uma forma geral. Quanto à equipe, alguns nomes para melhor identificação dos leitores: Bob Kane, Jack Kirby, Bob Powell, George Tuska. A empresa funcionou assim entre 1936 e 1939, sendo responsável pelo boom das HQs na América. Quer dizer, quase todos os grandes personagens de quadrinhos que vieram em sequência, de Batman a Homem Aranha, passaram ou saíram diretamente das mãos de membros da Eisner-Iger Studios, durante ou depois de sua fundação e encerramento de atividades. Cai o pano.

Ainda aos 23 anos de idade, Will Erwin Eisner, nascido em Nova York em 1917, adentrava a década de 1940 com uma (nova) ideia na cabeça. Queria fazer quadrinhos para pessoas adultas, não apenas crianças e adolescentes. O rompimento com Iger veio a partir de um convite da Quality Comics, que o ofereceu a chefia da redação, o cargo de desenhista e roteirista da editora, além de uma montanha de dinheiro. Eisner ganhou carta branca, junto com a encomenda da criação de um super herói, nos moldes do Batman, e seguiu seu rumo. E o rumo de suas ideias.

A primeira ideia, mesmo sob encomenda, já nasce revolucionária. Elaborar um suplemento semanal de quadrinhos para os jornais norte-americanos. Não inserida em um caderno especial. Mas um material de 16 páginas encartado dentro dos periódicos.  Uma revista. De junho de 1940 em diante, The Spirit ganharia os EUA. Algo que duraria ininterruptamente até 1952.

Com o formato que queria, o conteúdo que pretendia e a estética ousada que propôs, o único empecilho foi o fato de Eisner ser convocado para o Exército americano, que adentrara a Segunda Guerra Mundial em 1942. De lá, ainda conseguiu enviar o Spirit periodicamente, até que viu-se impossibilitado pois passou a desenvolver material publicitário e promocional para o Exército, em formato HQ. Eisner delegou a membros de sua equipe — Jules Feiffer, Abe Kanegson, Jerry Grandenetti e o haitiano André LeBlanc, que viria a trabalhar no Brasil, para a Ebal — a feição do anti-herói criado por ele. Em 1945, Eisner retorna do Exército e reassume o gibi.

O suplemento foi publicado até 28 de setembro de 1952 com o nome de The Spirit section, o que tornava o Spirit um destaque ainda maior. Waldomiro Vergueiro escreveu quando da morte de Will Eisner em 2005, para o site Omelete:

“Os aspectos gráficos foram outra área em que as histórias do Spirit se distinguiram de suas contemporâneas. (…) Ele inovava com estruturas narrativas paralelas, planos inusitados (como a história narrada através dos globos oculares de uma das personagens), jogos de sombra e luz, ângulos inquietantes, etc. Cada aventura do Spirit desenhada por Eisner constitui, ainda hoje, uma verdadeira lição sobre a arte de composição de uma história em quadrinhos, até mesmo para artistas já experientes”.

A “aventura” e o sucesso do Spirit foram fundamentais para que Eisner obtivesse ainda mais independência para a realização futura de projetos ainda mais ousados. Eisner por exemplo, cunhou o termo “graphic novel”, que viria a ser mais amplamente utilizado a partir dos anos 1980, com Frank Miller e Allan Moore (Batman – O Cavaleiro das Trevas e Watchmen, respectivamente). E, de fato, realizou verdadeiros “romances gráficos”. Já maduro, a partir de 1978 começa uma intensa produção (como se produzir gibis em série na década de 1930 não fosse intenso) de livros. Um Contrato com Deus (1978); New York – A Grande Cidade (1981); The Dreamer (1985); O Edifício (1987) Avenida Dropsie (1995) estão entre os principais títulos entre as duas dezenas que publicou até sua morte em 2005.

No Brasil, New York por Will Eisner foi levado ao teatro com adaptação e direção de Edson Bueno, pelo Teatro de Comédia do Paraná, em montagem de 1989. Avenida Dropsie foi aos palcos pelas mãos de Felipe Hirsch e a Sutil Companhia, em 2005. No cinema, The Spirit ganhou forma cinematográfica em 2008 com Gabriel Match vivendo o mascarado e direção do também cartunista Frank Miller. Um fracasso.

The Spirit foi reeditado em 1966 pela Harvey Comics e a partir dos anos 1990 por outros autores. Mas o “espírito da coisa” foi sacado décadas antes por Will Eisner. Seja para a indústria, seja para a arte. Um verdadeiro gênio da raça.

Imagens: reprodução

Ouça. Leia. Assista:

The Spirit (livros)

The Spirit (filme)

New York – A grande Cidade (livro)